terça-feira, 1 de agosto de 2017

D'o Silêncio

Nicholas Roerich © O Silêncio do Filósofo (1940)


«As palavras que jamais foram pronunciadas são as flores do silêncio.»
Provérbio Japonês

«(…) our chiefest secret place of silence must be within the soul rather than without.»
Cisneros (1929: 196)

«A música é a irmã perfeita do silêncio.»
John O’Donahue (Facebook via Alexandre Gabriel)

O primeiro sentido da palavra “silêncio” (do latim silentium) é a capacidade de “calar-se”, de permanecer mudo (SMEDT, 2001: 11). Algo aparentemente fácil, mas que, na verdade, implica um resoluto autodomínio: conhecimento, posse e dom de si mesmo (VASTO, 1978: 119). Calar-se serve, desde logo, para guardar segredo. O segredo ou reserva será um meio de defesa… Como diz a assertiva sabedoria popular: «Pela boca morre o peixe». É costume considerar-se que há três coisas que as pessoas têm dificuldade de fazer e manter segredo é uma delas, a par de conhecer-se a si próprio e vencer o apetite. Atente-se que secretismo não se trata de mentir por omissão e muito menos deliberadamente. Um “Homem secreto” deverá ser precisamente o contrário de um hipócrita, de um “homem da mentira” (na acepção de Scott Peck, 2001): este esconde os defeitos e as culpas, aquele o que tem de melhor (VASTO, 1978: 129).
O silêncio é também essencial no âmbito da aprendizagem em determinadas ordens esotéricas, como por exemplo acontecia entre os antigos pitagóricos, e é por isso que os neófitos são convidados «a meditar, ouvir, calar-se» (SMEDT, 2001: 14). «O silêncio é de ouro e a palavra de prata»; i.e., não se trata de “se calar”, expressão deselegante e ademais incorrecta entre Homens de Bem; trata-se apenas e tão-somente de exercer o justo equilíbrio, da prudência e da temperança, no uso da palavra e do silêncio. Trata-se de optar, deste modo, por não falar, parafraseando um dito Sufi, «se a palavra que vai dizer não for mais bela do que o silêncio». Tal como se pode decidir proferir palavra caso haja algo a afirmar que mereça realmente ser ouvido. Deste modo se refina a fortaleza de carácter, apartando-se de “palavreado” inoportuno ou, mais grave, indecoroso.
O silêncio é igualmente a base da introspecção, meditação, labor sobre si próprio. É o silêncio que propicia o ambiente adequado ao «Ora et Labora» de S. Bento (séc. VI): a “acção directa”, simultaneamente operativa e especulativa, sobre o templo ou laboratório (de labor + oratório) de si mesmo, lugar de profundas operações e laboriosas transformações no âmbito do aprimorar da “matéria”. Silêncio que não se resume apenas à renúncia da palavra, mas igualmente à ausência de ruído. Calar-se não só para se ouvir a si próprio e ao(s) outro(s), mas também silêncio para ouvir a voz do Todo. O silêncio é o momento em que Deus se reconhece em cada um de nós (BOYER, 2017). O(u)rar e O(b)rar, enquanto exercícios diários de aperfeiçoamento assentes na sabedoria milenar do silêncio. Se necessário for, retirando-se na qualidade de silenciário, através da experienciação temporária de “voto de silêncio”, para mergulhar nas profundezas do mysterium tremendum et fascinanspara ouvir a Voz do Silêncio.
O filme Silence (Silêncio), do realizador Martin Scorsese, que estreou em Portugal no dia 19 de Janeiro de 2017, aborda precisamente a (re)ligação a Deus, ou a ausência desta, justamente no contexto do “vazio”: «– Rezo, mas estou perdido. – Estarei apenas a rezar ao Silêncio?». A resposta assenta na Esperança e, invariavelmente, no exercício do mister e na oração com base no silêncio: Ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies (Ora, lê, lê, lê, relê, labora e encontrarás) – máxima do Mutus Liber (o Livro Mudo da Alquímia). O silêncio sagrado é o silêncio que permite fazer passar, sem perturbações, a mensagem essencial (AUGUSTO, 2014: 60). Faça-se, pois, silêncio!
Silêncio, que se vai cantar o fado


Nicholas Roerich © Turquestão - Silêncio da Montanha (1937)

A chuva parou tão de repente como tinha começado. De novo a pradaria se tingiu de um branco pálido e os pássaros voltaram a cantar, como se tivessem despertado do sono naquele momento. Pesadas gotas continuavam a cair das folhas das árvores. Enxuguei a água que me banhava os olhos e aproximei-me do casebre. Apenas atravessei a porta, senti um cheiro pestilencial e vi uma nuvem de moscas à entrada, fervilhando em torno de um excremento humano.
Concluí imediatamente que alguém havia estado ali há pouco, talvez a descansar, para prosseguir depois a caminhada. Sinceramente, irritou-me que esse alguém fosse tão ordinário ao ponto de utilizar aquele único refúgio para semelhante efeito. A situação, todavia, tinha o seu quê de caricato, e desatei a rir. E menos apreensivo fiquei a respeito de um tal desconhecido.
Penetrando melhor no casebre, notei que havia lume debaixo das cinzas. Aproveitei o calor para secar as roupas encharcadas. Mesmo demorando algum tempo, conjecturei que não teria dificuldade de alcançar o homem que me tinha precedido, pois era evidente que não caminhava apressado.
Saí da arribana. A planície e o arvoredo que me tinha abrigado estavam banhados por uma luz dourada, e a folhagem, agora seca, rumorejava suavemente ao entrechocar-se, como que batida por uma chuva de areia.
Peguei num ramo seco que me servisse de bordão e prossegui a caminhada. Andando, atingi finalmente a ladeira de onde podia ver ao fundo a linha da costa.
(…) Violentas emoções me encheram o peito quando, encharcado pela chuva e apoiado ao bordão, corri pela encosta abaixo, escorregando aqui e além, (…) [ENDO, 2010: 111-113]

De noite, sentado na cama, com o arrulhar de uma rola no arvoredo a cortar o silêncio profundo, sentia o rosto de Cristo olhá-lo fixamente. Os olhos azuis transpirando piedade, os lineamentos serenos, compunham um rosto que lhe inspirava confiança. «Senhor, nunca nos deixarás sós», murmurava ele, olhando intensamente para esse rosto. E imaginava a resposta: «Não, não vos abandonarei jamais.» Estendendo a cabeça, apurava o ouvido para melhor escutar essa voz, mas a única coisa que ouvia era o arrulhar da rola. A escuridão era densa, profunda. [ENDO, 2010: 156]

O padre permanecia sentado, as costas arqueadas batidas pelo clarão prateado do luar que lhe entrava pelas grades. A parede reflectia-lhe os ombros descarnados. De vez em quando, sobressaltava-se. Era quando lhe chegava aos ouvidos o súbito restolhar de algum insecto na folhagem do bosque.
Fechando os olhos, todo ele se diluiu na densa escuridão envolvente. Nessa noite, em que todos os que conhecia já dormiam profundamente um outro sono, trespassava-lhe o coração a lembrança de uma outra noite. Prostrado no chão moreno de um Jardim que absorvera todo o calor do dia, só, apartado dos discípulos que dormiam chumbados à terra, um homem tinha dito: «A minha alma está triste até à morte.» E o suor desse homem escorria-lhe pela fronte em gotas de sangue. Era esse o rosto que tinha agora diante dos olhos. Centenas de vezes lhe aparecera em sonhos, sofredor, coberto de suor, mas, inexplicavelmente, sempre fugidio, sempre perdido na lonjura. Só esta noite, e pela primeira vez, tinha podido concentrar o olhar nesse rosto emaciado e doloroso.
Teria também esse homem tremido de pavor aquela noite perante o silêncio de Deus? Aterrava-o admitir semelhante coisa. [ENDO, 2010: 195]

Nicholas Roerich © Cristo no Deserto (1933)

De novo, ouviu o guarda ressonar. Desta vez, era tal qual o rumorejo de um moinho de vento. O padre sentou-se no chão encharcado de urina e riu como um idiota. Que bruto devia ser o tipo! Sem ter por que temer a morte, ressonava estupidamente, percorrendo todas as gamas do registo sonoro. Dormia como um cevado, fragorosamente, a boca escancarada. Parecia-lhe ver com os próprios olhos a cara do guarda: um carão gordanchudo, como um odre de saqué… A personificação, em suma, do homem enfartado. E todavia, para as suas vítimas potenciais, esse rosto havia de ser tremendamente cruel. Não, decerto, uma crueldade requintada, aristocrática, mas boçal como a de um labrosta tratando reses ou criaturas a ele inferiores. Tipos desses vira-os ele por terras de Portugal e conhecia-os bem. Também agora este indivíduo não fazia a mínima ideia do sofrimento que podia causar aos demais com a sua grosseria. Também a um outro homem, cujo rosto era o mais belo no sonho dos homens, outros homens, a este semelhantes, lhe haviam dado a morte.
Tornava-se-lhe irritante um ruído tão grosseiro. E logo numa noite daquelas, a mais cruel da sua vida! Parecia-lhe mesmo que escarneciam dele. Quando o ultraje cessou, bateu forte na parede, com o punho. Mas os guardas não se levantaram… tal como os discípulos no horto de Getsémani, profundamente adormecidos, em absoluto indiferentes ao tormento do mestre. E de novo bateu com força na parede da cela.
– Que é padre, que é? – Era o intérprete: o gato a moer a presa… – Está assustado, é isso? Era bem melhor que o senhor fosse menos teimoso. Diga uma só palavra, homem! Diga que abjura e tudo fica arrumado. Desafogue essa tensão acumulada e será outro!
– Era só para dizer que não suporto por mais tempo esse tipo que está para aí a ressonar – respondeu o padre, no escuro.
Caiu das nuvens o intérprete, verdadeiramente siderado…
– A ressonar? Essa é boa!... O senhor ouviu daí, Sawano?...
O padre não sabia que Ferreira estava perto do intérprete.
– Sawano, diga-lhe o que é… Explique-lhe…
A voz que, anos atrás, ouvia diariamente soou aos ouvidos do padre débil e triste:
– Ninguém ressona aqui. É o estertor dos cristãos pendurados na fossa!... [ENDO, 2010: 229-230]

Quando o padre assentou o pé no fumie nascia a manhã. Ao longe, um galo cantou. [ENDO, 2010: 237]

Nicholas Roerich © Manhã - Silêncio Violeta (?)



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
· AUGUSTO, Carlos Alberto. Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014, pp. 96.
· BLAVATSKY, Helena (1899). A Voz do Silêncio. São Paulo: Editora Ground, 2002, pp. 112. ISBN 85-7187-094-2
· BOYER, Remi. Palestra, no âmbito do relançamento do livro A Tradição Maçónica e o Despertar da Consciência (editora Zéfiro), proferida no dia 24 de Abril de 2017, na sede da AMORC em Lisboa
· CISNEROS, García Jiménez de (1500): Book of Exercises for the Spiritual Life. Montserrat: Monastery of Montserrat, 1929, pp. 338.
· ENDO, Shusaku. Silêncio. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010, 2ª ed., pp. 272. ISBN 978-972-20-4135-5
· PECK, Scott (1985). Gente da Mentira – A Esperança para Curar a Maldade Humana. Cascais: Sinais de Fogo, 2001, pp. 360. ISBN 972-8541-276-9
· SMEDT, Marc de. Elogio do Silêncio. Cascais: Sinais de Fogo, 2001, pp. 216. ISBN 972-8541-25-2
· VASTO, Lanza del. Não-violência e Civilização. Lisboa, 1978.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

D'a Marcha

A fechar o mês de Santiago e a coincidir com o começo da peregrinação que empreendemos no ano transacto, publicamos um excerto da obra Imagens e Reflexos do Imaginário Português, da autoria de Gilbert Durand e prefácio do insigne Mestre Lima de Freitas. Na sequência de mais de um milénio de tradição cavaleiresca, num blogue assumidamente de “Caminheiros Andantes” (ou de “cavaleiros apeados”, como se queira), mais do que (re)lembrar pretendemos (ou gostaríamos) que este texto suscite (ou suscitasse) a necessária e devida curiosidade por antigas “coisas” (!) afinal tão presentes.

Mestre Lima de Freitas © Estudo para D. Sebastião (1987)

A PEREGRINAÇÃO
(...) “Cruzar-se” é partir para um combate santo, uma justa reconquista do túmulo de Cristo, e ao mesmo tempo fazer a famosa peregrinação à Terra Santa. Mas não é a Cruzada uma extrapolação da reconquista? Ora a reconquista em terra ibérica vai situar o centro da terceira prestigiosa peregrinação da cristandade no Oeste da Europa, na Galiza, centro que irá literalmente irrigar toda a Europa ocidental através das grandes vias de peregrinação que convergem para Santiago.
Não esqueçamos igualmente que o famoso Monte Saint Michel “no perigo do mar”, dedicado ao Arcanjo chefe das milícias celestes, era um dos grandes centros de peregrinação da França, também ele no Oeste da Europa e lugar onde a crença céltica situa a ilha de Avallon, no qual os mortos esperam a Ressurreição.
Mas o caso de São Tiago Maior e do seu túmulo em Compostela é paradigmático: por vezes o Santo é representado como “matamouros”, de espada em riste, a cavalo – muito próximo da figuração equestre do Imperador Constantino, tão célebre no Poitou e em Saintonge no séc. XII (São Nicolau de Civray, Parthenay le Vieux, Saint Jovin de Marne, Aulnay, Sainte Croix de Bordéus, etc..) – outras vezes, sobretudo a partir do séc. XIII, como peregrino a pé, coberto pelo grande “sombrero” ornado com a concha, apoiado no bordão, da cabaça e alforge, abrigando porventura alguns peregrinos debaixo da sua capa (como no baixo-relevo do séc. XVII do Museu de Bona). Ao considerarmos a lista das obras de arte consagradas a São Tiago Peregrino verificamos que se trata, as mais das vezes, de estátuas anónimas e populares, e menos de obras de grandes pintores (à parte o Guido Reni do Prado e o Rembrandt da colecção Stephen C. Clark de Nova Iorque). O Peregrino aparece de algum modo como a face plebeia do Cavaleiro. Donde a extrema difusão do culto e das múltiplas relíquias do Santo Peregrino: Paris possuía três igrejas consagradas a São Tiago, e em toda a Europa se manifestava o seu culto: nos Países Baixos, na Alemanha, na Inglaterra, em Portugal – onde é o patrono de Coimbra – em Roma, Veneza, Milão, etc.. O culto deste santo foi sempre crescendo do século XII até ao século XIV, depois declina no séc. XVI quando a voga das peregrinações e o espírito das cruzadas desaparecem.
Mas há algo ainda mais interessante: a captação pela Cavalaria, na rota francesa da peregrinação, de uma santa padroeira numa das últimas etapas antes da travessia dos Pirinéus. Tal foi o destino de Sainte Foy de Conques, na Rouergue, a princípio insignificante. Nada parecia predestinar (mas veremos já que só na aparência, e não certamente nas razões profundas) nessa menina mártir de Agen uma das Santas Padroeiras da Cavalaria! Como o diz, com graça, Louis Réau, “o maior milagre de Sainte Foy é seguramente a prodigiosa extensão do culto prestado na Idade Média a uma pequena santa local e sem realidade histórica (sic)…”. Cruzados e peregrinos propõem o culto da menina ao longo de todo o “Camino francès”: em Roncevaux, na própria cidade de Compostela, na Normandia (em Conques), em Libourne, nos Baixos Pirinéus, na Haute Garonne, no Lyonnais, na Tarentaise, na Brie, na Beauce, em Londres, em Liège, na Itália, na Espanha e até – mais tarde – em Bogotá… Notemos de passagem que esta santa padroeira dos Cruzados é igualmente, e curiosamente, padroeira das parturientes, tal como São Leonardo de Noblac, no Limousin. Reza-se tanto à santa como ao santo para pedir o “livramento” dos cruzados cativos, cujas cadeias e correntes adornam, em ex-votos, os seus santuários. Veremos a seguir a importância deste culto do “cinto de Sainte Foy”.

Tentemos compreender, se não explicar, o destino retumbante e o sucesso da donzela de Rouergue. Antes de mais nada, evidentemente, há o nome: a Idade Média é sôfrega de homónimias e de trocadilhos: em Conches (séc. XVI) a pequena santa, confundida com uma certa Santa Foi de Roma, tem por mãe Santa Sofia… Mas este jogo de palavras não basta para explicar a extraordinária difusão e sobretudo a introdução da jovem mártir na mesnada santa dos Cavaleiros. A protecção das parturientes pela própria padroeira das Cruzadas e o culto do “cinto” põem-nos numa pista de interpretação mais interessante: encontrámos já o culto do “cinto” e as mesmas atribuições maiêuticas em Santa Margarida de Antioquia, matadora de sáurios ligada a S. Jorge, o Grande Patrono da Cavalaria. Amplifiquemos a comparação: Santa Margarida é uma “princesa” e portanto tem a cabeça cingida por uma coroa, de pérolas bem entendido (margarida = pérola) – sublinharemos adiante a importância deste pormenor – pérolas “marinhas” que a confundem com Santa Pelágia de Antioquia (pelagia = mar) e com Santa “Marinha” de Orense, em Espanha. O que há de notável, porém, é que a pequena Santa de Rouergue é, também ela, incompreensivelmente coroada, como se vê no celebérrimo relicário de Conques (séc. X), no vitral da catedral de Chartres (séc. XIII) – onde uma pomba desce do céu com uma coroa cravejada de pedras preciosas a fim de coroar a pequena mártir –, ou na estatueta de Pierre Fréchieu (séc. XV) do Tesouro de Conques… Santa Foy, como Santa Margarida, foram convertidas pelas respectivas amas de leite; ambas foram desejadas por “pagãos”, uma por Blibrius, outra pelo procônsul Daciano; ambas sofreram um rôr de suplícios: atenazadas, queimadas e por fim decapitadas.

Mas, sobretudo, ambas são invocadas – donde a devoção pelos seus “cintos” – para alívio pronto das parturientes. A “contaminação” hagiográfica não deixa dúvidas, quanto a nós: quer uma, quer outra são “princesas”, ambas virgens e ambas “atenazadas” nos seios, ambas santas protectoras do parto… Talvez não seja indiferente lembrar aqui a filiação “sofiânica” da santinha de Rouergue. Por detrás da carga de superstições populares desenha-se uma interpretação, que começa a dar justificação ao facto das duas virgens mártires estarem ligadas à mesnada da santa cavalaria. (…)
A confusão entre a cavalgada errante do cavaleiro e a peregrinação é, pois, extremamente instrutiva: mostra-nos que o carácter errante dos Cavaleiros – de Gauvin a Perceval nas duas “Continuações” do Conto do Graal – é apenas aparente. Na verdade essa “errância” tem a ver com a demanda alquímica, como mostrou P. G. Sansonetti, quer mais simplesmente com uma “peregrinação” iniciática ou, pelo menos, “iluminativa”. Como já o provou Georges Suby, bem cedo, a partir do Pontifical romano-germanique de Mayence, do século X, a cavalaria tornou-se uma ordo, foi “ordenada”. Essa ordem não parou de crescer ao longo dos séculos XI e XII, reforçada pela confluência do sacral e do militar nas grandes ordens religiosas e guerreiras. Não espanta, por isso mesmo, ver confundidas na crença popular a via espiritual do peregrino e a demanda do cavaleiro. Ambas constituem uma “marcha” – à margem tanto do confortável clericato como da sedentarização urbana da burguesia nascente – unidas numa “demanda” cujo tipo perfeito é a demanda do Graal. O carácter “errante” da cavalaria que D. Quixote, o derradeiro cavaleiro, retomará com desesperada magnificência, é de natureza igual à da peregrinação espiritual. (…) [DURAND, 2000: 113-116]

Armando Romanelli de Cerqueira © Don Quixote (1974)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
DURAND, Gilbert. Imagens e Reflexos do Imaginário Português. Lisboa: Hugin Editores, 2000, pp. 224. ISBN 972-8310-23-4

sábado, 29 de julho de 2017

D'o Encantamento

Nicholas Roerich © Nanda Devi (1944)

«Um fraco desejo de regressar lá ao alto surge um dia em nós. Assim recomeça o encantamento.»
Walter Bonatti (1962 in CUIÇA, 2010: 27)

Je crois fermement à l’enseignement de la nature. Et c’est pour cela que je suis convaincu que la montagne, avec ses beautés, ses lois sévères, reste aujourd’hui encore plus qu’hier une des plus sûres écoles de caractère. Parce que là-haut on apprend avant tout à souffrir.
(…) Contrairement à ce que pensent beaucoup de gens, ètre alpiniste ne signifie pas exactement risquer sa vie en manière de passe-temps, en restant accroché des journées entières à des paróis absurdes, cramponné à des rudimentaires et peu sûres engins, avec pour seul propôs une escalade conçue comme une fin en soi; voire même l’escalade d’une montagne aujourd’hui accessible par un commode moyen mécanique. S’il en était ainsi, et rapproché par antithése des progrès d’une technique qui a force jusqu’aux espaces inter-sidéraux, l’alpinisme ne serait à l’évidence qu’une activité retrograde et ridicule. Non. Même si les excès decadentes d’un goût tout gratuit de la virtuosité, dans certaines escalades modernes, peuvent déconcerter, désorienter la majorité, le véritable alpinisme est bien autre chose: avant tout, un motif de lutte et de cônquete intérieure, d’affinement et de jouissance spirituelle, qui a la montagne pour ideal et magnifique camp d’action. Les fatigues, les souffrances, les privations dont l’ascension d’une cime est presque toujours hérissée deviennent de ses fait des conditions valables, que l’alpiniste accepte pour tremper ses forces et son caractère. En outre dans ce climat de bataille, au contact direct des difficultés, des inconnues et des mille dangers de la montagne, l’alpiniste se révèle, tel qu’il est réellement, dépouillé avec une sincérité impitoyable, avec ses qualités et ses défauts, à ses propes yeux et aux yeux des autres. Je pense que cela seul pourrait suffire à demontrer que la montagne peut devenir pour qui la gravit le principe initial d’une des plus belles et des plus fécondes exaltations de la vie. [BONATTI, 1987: 7-8]

Nicholas Roerich © SKanchedzonga (1944)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BONATTI, Walter. A Mes Montagnes. Paris: Éditions Arthaud, 1987, pp. 286. ISBN 2-7003-0673-2
CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanhismo I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224. ISBN 978-989-96647-1-5

sexta-feira, 28 de julho de 2017

No erguido cume

Mestre Lima de Freitas © Prestes João (1987)


Os Lusíadas - Canto X

76
- «Faz-te mercê, barão, a Sapiência
Suprema de, cos olhos corporais,
Veres o que não pode a vã ciência
Dos errados e míseros mortais.
Sigue-me firme e forte, com prudência,
Por este monte espesso, tu cos mais.»
Assi lhe diz e o guia por um mato
Árduo, difícil, duro a humano trato.


77
Não andam muito que no erguido cume
Se acharam, onde um campo se esmaltava
De esmeraldas, rubis, tais que presume
A vista que divino chão pisava.
Aqui um globo vêm no ar, que o lume
Claríssimo por ele penetrava,
De modo que o seu centro está evidente,
Como a sua superfícia, claramente. 


Mestre Lima de Freitas © Luís de Camões

Sur le chemin de Shambala

INTRODUCTION (Hugues Didier)
Les textes qu’on lira ici, traduits du portugais, font le récit d’une découverte, celle du Tibet par les Européens. Le monde ocidental disposait certes déjà d’informations, plus ou moins fausses, sur le plus mystérieux pays d’Asie, avant le voyage et l’établissement d’António de Andrade et d’autres jésuites portugais dans le royaume du Gu-ge (Tibet ocidental) et aussi dans celui d’Utsang (Tibet Central), au début du XVIIe siècle. Des rencontres accidentelles s’étaient déjà produites entre lamas et clercs de l’Église romaine, comme celle décrite par Guillaume du Rubrouck qui eut lieu en 1253-1254. Mais aucun voyageur n’avait jamais franchi les cols himalayens ou mis pieds sur le «Toit du monde», s’il venait d’Europe. Tel n’était évidemment pas le cas de marchands ou de pèlerins chinois, indiens, ou musulmans. Ces derniers servirent d’ailleurs de précurseurs ou d’informateurs pour ces deux equipes de Portugais particulièrement hardis qui se lancèrent à l’assaut du Pays des Neiges, la première à partir d’Agrā et de la cour du Grand Mogol, la seconde ensuite à partir de Bengale.
L’épopée maritime du Portugal a laissé une oeuvre incomparable dans les lettres des temps modernes, Les Lusiades de Luís de Camões. Seule époppée réussie à cette époque (…), cette oeuvre eût été impossible sans l’existence d’une ample littérature portugaise de la navigation et de la découverte maritime. Elle accrédite l’idée d’une nation portugais formée de marins ou inséparable de léau salée. Mais on oublie trop que ces Argonautes on été capables d’abandonner leurs vaisseaux et de s’enfoncer dans les masses continentales, à pied, à cheval et même à chameau. D’une part le Brésil, d’autre part l’exploration des coeurs chauds ou glacés de l’Asie, la Chine continentale et surtout les grandes espaces musulmans ou sous domination et controle de l’islam (Empire ottoman, Iran safévide, Afghanistan et Inde du Grand Mogol), prouvent l’un et l’autre que les Portugais n’ont pas craint de s’éloigner des mers. (…) L’audace lusitanienne en pays musulman d’Asie, et ici au Tibet, accessible seulement à partir de l’Inde sous la domination de l’Islam, ne fut peut-être pas moins grande que sur les flots. Elle n’a cependant pas inspire d’époppée: il ne pouvait pas y en avoir deux, l’une pour la mer et l’autre pour la terre, la seconde prolongeant la première. [DIDIER, 1996: 7-8]

Nicholas Roerich © Song of Shamballa (1943)

RÉCIT D’ESTEVÃO CACELA (1627)
Nous avons posé toutes sortes de questions sur le royaume du Cathay. Nous n’en avons reçu aucune information, du moins sous tel nom, totalement inconnu ici. Mais un royaume est três célèbre ici: ces gens disent qu’il est três grand. Il s’appelle Xembala [Šam bha lai, Shambala]. Il est situe à côté d’un autre royaume appelé Sopo [Sog po]. Sur ce royaume de Xembala, ce roi ignore quelle en est la Loi et nous le lui avons demandé bien des fois. Nous pensons qu’il doit s’agir di Cathay, car le royaume de Sopo est celui des Tartares, ce que nous déduisons de ce que le roi nous en dit: la guerre est continuelle entre Sopo et la Chine et il precise que la Chine a plus d’habitants. (…) Comme le Cathay est très vaste et que c’est le seul royaume qui reste dans ces parages à côté des Tartares d’après les descriptions des cartes, nous pouvons en déduire, avec quelque probabilité semble-t-il, que c’est ce qu’ici on appelle Xembala. (…) La route qui conduit au Xembala est d’après eux très difficile. J’ai cependant confiance dans le Seigneur à ces propôs: de même qu’il nous a conduits jusqu’ici en nous guidant, il saura bien nous mener là où nous pourrons voir le Cathay de plus près, de manière à ce que je puisse l’an prochain en envoyer des nouvelles à Votre Révérance. [DIDIER, 1996: 242-243]

Nicholas Roerich © Message from Shamballa (1933)


RÉFÉRENCES BIBLIOGRAPHIQUES
DIDIER, Hugues. Les Portugais au Tibet – Les premières relations jésuites (1624-1635). Paris: Editions Chandeigne, 1996, pp. 384. ISBN 2-906462-31-4
DIDIER, Hugues. Os Portugueses no Tibete – Os primeiros relatos dos jesuítas (1624-1635). Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000, pp. 289. ISBN 972-8325-82-7

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A caminho de Xembala

Nicholas Roerich © Way to Shamballa (1933)

Com muita diligência e maior alegria começámos a subir as serras; são elas as mais fragosas e altas que parece pode haver no mundo, e bem longe estou de poder declarar a V. R. a dificuldade com que por elas subimos; basta que depois de andar dois dias desde pela manhã até à noite, não acabámos de passar uma, cortando pelo mais altos picos e neles por caminho tão estreito que por muitas vezes não é mais largo que quanto cabe um só pé, andando bons pedaços assim, pé ante pé, pegados com as mãos para não resvalar, pois o mesmo é errar o pôr o pé bem direito que fazer-nos em pedaços pelos ares. São pela maior parte aquelas serras tão talhadas a pique como se por arte estivessem a prumo, correndo-lhes lá no profundo como em um abismo o rio Ganges, que, por ser mui caudaloso e se despenhar com notável estrondo por grande penedia entre serras tão juntas, acrescenta com o seu eco o pavor que a estreiteza do caminho causa a quem vai passando. Tem as descidas mais dificultosas e perigosas, pois carece homem em muitas partes de remédio de se poder pegar com as mãos como nas subidas e assim é necessário descer em muitas partes como quem desce escada de mão, dando as costas ao caminho que vai fazendo. [AA. VV., 1989: 69]

Invocando o nome de Jesus e ajuda do Senhor, continuámos por diante, porém o trabalho que passámos foi muito excessivo, porque nos acontecia muitas vezes ficar encravados na neve, ora até aos ombros, ora até aos peitos, de ordinário até ao joelho, cansando a sair acima, mais do que se pode crer, e suando suores frios, vendo-nos não poucas vezes em risco de vida; muitas vezes nos era necessário ir por cima da neve com o corpo, como quem vai nadando, porque desta maneira não se encrava tanto nela; assim fomos continuando, dormindo as noites sobre a mesma neve, sem ter mais abrigo que deitar um dos três cambolins que levávamos por cima dela, e cobrindo-nos todos três com os outros dois, e não era este o maior trabalho, porque mais sentíamos a neve que começava a cair das quatro da tarde por diante, quase toda a noite, tão miúda e tão espessa que nos não deixava ver, estando juntos, acompanhada com um vento teso e sobremaneira frio, cobria-nos por cima dos cambolins e o remédio era sacudi-la por muitas vezes para não ficarmos enterrados debaixo dela. Nos pés, mãos e rosto não tínhamos sentimentos, porque com o demasiado rigor do frio ficávamos totalmente sem sentido; aconteceu-me, pegando em não sei quê, cair-me um bom pedaço do dedo sem eu dar fé disso, sem sentir ferida, se não fora o muito sangue que dela corria. Os pés foram apodrecendo, de maneira que, de mui inchados, no-los queimavam depois com brasas vivas e ferros abrasados e com muito pouco sentimento nosso; a isto se acrescentaram dois grandes males, o primeiro, que cada um de nós tinha um mortal fastio, com o que ficávamos como que impossibilitados para comer; não me lembra que em doença tivesse outro mal igual a este; mas a necessidade fazia que sobre todas as repugnâncias comesse alguma coisa e com muita força e com algumas invenções procurava com os moços o mesmo, mais do que nunca fiz a doentes graves. A outra coisa que nos foi de pena era não achar água para beber, a qual, ainda no meio de tais frios, nos era bem necessária, por razão da secura que causava o muito trabalho; não era esta falta por faltarem fontes, mas por todas correrem ocultamente por baixo da neve e pela mesma maneira o rio Ganges, vindo quase todo o caminho por baixo dela. Comíamos pedaços da mesma neve e às vezes, quando o sol começava de aquentar, derretíamos uma pouca em um prato de latão. Nesta forma fomos caminhando até ao alto de todas as serras onde nasce o rio Ganges de um grande tanque e do mesmo nasce também outro que rega as terras do Tibete. Já neste tempo tínhamos a vista dos olhos quase toda perdida, mas eu perdi mais tarde que os moços, pela muita diligência que fiz em resguardar os olhos, mas não foi bastante para não ficar quase cego por mais de vinte e cinco dias, sem poder rezar o ofício divino, nem ainda conhecer uma só letra do breviário. [AA. VV., 1989: 76-77]

© António de Andrade

Os jesuítas portugueses António de Andrade, Manuel Marques e, posteriormente, Gonçalo de Sousa terão sido os primeiros europeus a adentrar-se na cordilheira dos Himalaias: aventura descrita no «descobrimento do Grão-Cataio e reinos do Tibete». Disso nos dá notícia António de Andrade em três cartas: a primeira datada de 1624, a segunda de 1626 e a terceira de 1627. É de destacar o facto deste ter passado o colo de Mana a 5604 metros de altitude. Não se deve também ignorar as expedições de Estêvão Cacela (1627) e de Francisco de Azevedo (1631) que, em ambos os casos, ultrapassaram novamente os cinco mil metros de altitude. [CUIÇA, 2010: 37]



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AA.VV.. Notícias da China e do Tibete – Cartas dos Cativos de Cantão: Cristovão Vieira e Vasco Calvo (1524) – O Descobrimento do Tibete, pelo Pe. António de Andrade (1624). Lisboa: Publicações Alfa, 1989, pp. 132.
ANDRADE, P. António. O descobrimento do Tibet. Lisboa: Academia das Sciências de Lisboa, 1921, pp. 142.
CUIÇA, Pedro. Guia de Montanha – Manual Técnico de Montanhismo I. Lisboa: Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal/Campo Base, 2010, pp. 224. ISBN 978-989-96647-1-5

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Là-haut

Nicholas Roerich © Everest (1931)

“Naturellement, les montagnes réservent leurs plus belles recompenses à ceux qui atteignent leurs sommets. La vue de l’ascensioniste n’est plus fermée ni limitée. Il peut voir tout autor de lui. Le champ de sa visione est étendu autant que faire se peut. Il voit dans toutes les directions. Il se sent élévé au-dessus du monde et a la fière conscience de s’être ainsi élevé par ses propes moyens; c’est une curieuse satisfaction, car alors il oublie touts les tracas, tous les chagrins, dans l’atmosphère sereine qui, pour un moment, est son domaine.
Ce n’est que pendant un moment qu’il séjourne là-haut. Les hommes ne peuvent vivre à tells hauteurs. Ils doivent revenir aux plaines et prendre part de nouveau à la vie pratique. Mais la vision des cimes ne les abandone plus. Ils veulent y retourner. Ils veulent aller encore plus haut.” [HOWARD-BURY, 1923: 14]

Pedro Cuiça © A la Conquête du Mont Everest (2017)

Pedro Cuiça © A la Conquête du Mont Everest (2017)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
HOWARD-BURY, C. K.. A la Conquête du Mont Everest. Paris: Payot & Cie, 1923, pp. 414.

terça-feira, 25 de julho de 2017

D'a (pós)modernidade

Os seres humanos são animais gregários que, desde as suas mais remotas origens, viveram em grupos/tribos, não sendo de todo frequente ou usual o individualismo, o isolamento ou a vida solitária. Essas são tendências relativamente recentes, em termos evolutivos enquanto espécie, tal como muitas concepções alternativas* que – independentemente de pretensos optimismos, pessimismos ou nem uma coisa nem outra – não passam de evidentes manifestos de basilar ignorância, de asininas confusões ou até de alarves parvoíces. A separação/especialização de tarefas já ocorria no paleolítico, é anterior ao género Homo e até se encontra esboçada em comportamentos de outras espécies actuais. E daí?... Na verdade, não se deveria confundir um bife à milanesa com um bife sobre a mesa ou uma obra prima com a prima do mestre de obras! Mas a realidade é complexa (ou somos nós que a complicamos?) e, portanto, dada a equívocos...


"Imagine o leitor que é um veado. Tem, no fundo, quatro coisas a fazer durante o dia: dormir, comer, evitar ser comido e socializar (o que significa marcar um território, perseguir um elemento do sexo oposto, cuidar de uma cria, o que seja). Não existe qualquer necessidade real de fazer muito mais. Agora imagine que é um ser humano. Mesmo que se atenha às coisas básicas, tem bastante mais que quatro coisas para fazer: dormir, comer, cozinhar, vestir-se, cuidar da casa, viajar, lavar, fazer compras, trabalhar… A lista é quase interminável. Como tal, os veados deviam ter mais tempo livre do que os seres humanos, contudo são as pessoas, não os veados, que encontram tempo para ler, escrever, inventar, cantar e navegar na internet. De onde vem todo este tempo livre? Vem da troca e da especialização, bem como da divisão do trabalho daí resultante. Um ser humano pede a outrem que o faça por ele, enquanto se dedica a fazer outra coisa pelo outro – e, dessa forma, ambos ganham tempo.
Temos pois que a autossuficiência não é o caminho para a prosperidade: «Quem teria avançado mais ao fim de um mês», perguntava Henry David Thoreau: «O rapaz que fez o seu próprio canivete com o minério que cavou e fundiu, lendo tanto quanto seria necessário para o fazer – ou o rapaz que, entretanto, assistiu a aulas de metalurgia e recebeu um canivete Rodgers do pai?» Ao contrário do que diz Thoreau, é o último, de longe, porque lhe sobra tempo para aprender outras coisas. Imagine se tivesse de ser completamente autossuficiente (não só fingir que o é, como Thoreau). Tem de se levantar de manhã todos os dias e abastecer-se apenas com os seus próprios recursos. Como passaria o seu dia? As quatro principais prioridades seriam alimentação, combustível, vestuário e abrigo. Tratar do quintal, dar de comer ao porco, ir buscar água ao regato, apanhar lenha na floresta, lavar umas batatas, acender uma fogueira (sem fósforos), cozinhar o almoço, reparar o telhado, ir buscar fetos frescos para uma nova cama, talhar uma agulha, fiar linha, coser uma pele para fazer sapatos, tomar banho no rio, fazer um pote de barro, apanhar e cozinhar uma galinha para o jantar. Não há velas, nem livros para ler. Não há tempo para fundir metal, perfurar em busca de petróleo ou viajar. Encontra-se ao nível da subsistência e, sinceramente, embora de início possa exclamar, como Thoreau, «como é maravilhoso escapar ao bulício», passados alguns dias a rotina tornar-se-ia deveras soturna. Se deseja, nem que seja a mais ínfima melhoria na sua vida – utensílios metálicos, pastas de dentes ou iluminação, por exemplo – algumas tarefas terão de ser executadas por outra pessoa, porque não terá tempo para as fazer pessoalmente." [RIDLEY, 2013: 49-51]

Pedro Cuiça © Museu Arqueológico do Tirol do Sul (Bolzano - Itália, 2016)

"Oetzi, o «homem do gelo» mumificado encontrado nos Alpes em 1991, transportava consigo tanto equipamento quanto os caminhantes que o encontraram. Tinha utensílios feitos de cobre, sílex, osso e seis tipos de madeira: freixo, viburno, lima, cornizo, teixo e bétula. Usava roupas de erva entrelaçada, casca de árvore, tendões e quatro tipos de cabedal: pele de urso, couro de veado, couro de cabra e pele de veado. Levava consigo duas espécies de fungos, um como remédio, outro parte de um conjunto de apetrechos para fazer fogo que incluía uma dezena de plantas e pirite para fazer faíscas. Era uma enciclopédia ambulante de conhecimento acumulado – conhecimento de como fazer utensílios e roupa, bem como dos materiais com que estas eram feitas. Levava consigo as invenções de dezenas, talvez milhares de pessoas. Se tivesse de inventar do nada todo aquele equipamento seria um génio. No entanto, mesmo que soubesse o que fazer e como fazê-lo, se tivesse passado os seus dias a recolher todos os materiais de que necessitava só para a comida e para a roupa (já para não falar do abrigo e das ferramentas), iria além dos seus limites, quanto mais se tivesse de fundir, curtir, coser, moldar e afiar tudo. Estava sem dúvida a consumir o trabalho de muitas outras pessoas e a dar o seu em troca. (…) Oetzi viveu há cerca de 5300 anos no vale alpino, dois mil anos depois de a agricultura ter chegado ao Sul da Europa." [RIDLEY, 2013: 157-158]


*NOTA: Concepções alternativas são “formas de ver/pensar”, intuitivas ou promovidas através de aprendizagens, que não coincidem com a realidade factual e concreta. Uma concepção alternativa é diferente de um simples erro. Os erros podem ser identificados e corrigidos perante a evidencia/demonstração da respectiva concepção correcta. No entanto, as concepções alternativas são, muitas vezes, persistentes e difíceis de corrigir/eliminar, podendo constituir importantes obstáculos à correcta interpretação do mundo em geral e/ou de fenómenos em particular.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
RIDLEY, Matt. O Otimista Racional – Como Evolui o Bem-estar. Lisboa: Bertrand Editora, 2013, pp. 528. ISBN 978-972-25-2624-1

segunda-feira, 24 de julho de 2017

(New) Ages

Os três sistemas de valores que eu identifico – os de recolectores [caçadores], agricultores e utilizadores de combustíveis fósseis – são exemplos daquilo a que Weber chamou «tipos ideais», «alcançados», explicou, «pela acentuação unilateral de um ou mais pontos de vista e pela síntese de inúmeros fenómenos individuais difusos, discretos, mais ou menos presentes e ocasionalmente ausentes, que são organizados de acordo com esses pontos de vista enfatizados apenas por um lado numa construção mental unificada. Na sua pureza conceptual, esta construção mental nunca pode ser encontrada empiricamente na realidade. É uma utopia.» Os tipos ideais reduzem as vidas reais de milhares de milhões de pessoas a um punhado de modelos simples, e dado que incorporam uma variação empírica tão enorme, estão necessariamente recheados de exceções. Mas é o preço a pagar se queremos identificar causas por trás do caos da vida real.
É provável que alguns leitores pensem que este caminho nos leva a ismos errados de todos os tipos. Para começar, é redutor. Na maior parte dos ramos das humanidades e de algumas ciências sociais, «redutor» é um termo pejorativo, mas ao invés de negar o facto óbvio do meu reducionismo, quero abraçar a acusação. Quem o negar não está a pensar o suficiente. Só para dar um exemplo, tive recentemente a oportunidade de consultar alguns pormenores na biografia de oito volumes de Winston Churchill, escrita por Martin Gilbert (que, na verdade, foi publicada em treze livros, porque alguns dos volumes eram demasiado grandes para serem delimitados entre um só par de capas). Deve ser uma das maiores biografias jamais escritas, mas não deixa de ser redutora. Reduzir a vida de uma pessoa a palavras numa página – ainda que sejam cinco mil páginas – envolve necessariamente distorcer uma realidade mais complexa; reduzir as vidas de todas as pessoas que viveram nos últimos vinte milénios a um punhado de capítulos breves fá-lo necessariamente ainda mais. Mas não há problema. A questão que devíamos pôr não é se um historiador, um antropólogo ou um sociólogo está a ser redutor – a resposta é sempre afirmativa –, mas sim que grau de redução é necessário para resolver o problema que é apresentado. Grandes questões precisam muitas vezes de uma grande abstração, e é isso que eu proponho. [MORRIS, 2017: 38-39]


 Há vinte mil anos, todas as pessoas da Terra eram recoletoras. Há cerca de quinhentos anos, bem menos de uma pessoa em cada dez praticava este modo de vida, e essas haviam sido confinadas a apenas um terço do planeta. Hoje os recolectores constituem muito menos de um por cento da população mundial. Os poucos sobreviventes estão na sua grande maioria circunscritos a ambientes extremos que os agricultores não querem, como o deserto do Calaári e o Círculo Polar Ártico, ou onde ainda não penetraram como partes da Amazónia e as florestas húmidas do Congo. No entanto, até refúgios remotos podem ter interesse económico ou político para utilizadores de combustíveis fósseis, o que significa que os governos, os mercados e os gostos modernos tiveram pelo menos algum impacte em tudo exceto nos recolectores contemporâneos mais isolados. (Na Tanzânia, em 1986, uma das visões que mais me surpreendeu foi um caçador massai armado com uma lança a beber uma garrafa de Coca-Cola enquanto aguardava – com a sua arma pendurada num ombro – um autocarro que o levaria ao seu acampamento. Era, na verdade, tudo menos invulgar; na década de 1980, a maior parte dos caçadores-recoletores praticava uma recoleção assistida por combustíveis fósseis.)
Fazer comparações entre recolectores do século XX em ambientes muito árduos e recolectores pré-históricos em ambientes mais amenos e favoráveis apresenta obviamente problemas. Em meados do século XX, vários antropólogos e arqueólogos reagiram apresentando tipologias muito úteis de recolectores, mas desde a década de 1980 outros foram muito mais longe e sugeriram que as analogias só podem ser enganadoras. Longe de serem relíquias de um estilo de vida antigo, alegam estes antropólogos, os recolectores modernos são fruto de processos históricos claramente modernos, sobretudo do colonialismo europeu, o que significa, concluem, que os recolectores contemporâneos pouco nos dizem sobre a pré-história. Alguns antropólogos começaram a defender que a própria ideia de comparar recolectores pré-históricos e modernos é implicitamente racista, uma vez que reduz os recolectores contemporâneos ao estatuto de «antepassados vivos» que foram deixados para trás pelo progresso, logo, precisam de ser protegidos sob a asa das sociedades de combustíveis fósseis. [MORRIS, 2017: 60-61]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MORRIS, Ian. Caçadores, Camponeses e Combustíveis Fósseis – Como evoluíram os valores humanos. Lisboa: Bertrand Editora, 2017, pp. 448. ISBN 978-972-25-3249-5