terça-feira, 18 de julho de 2017

Walden (II)


Na sequência da comemoração dos 200 anos sobre o nascimento de Henry David Thoreau e coincidindo com o convite da editora Antígona de «nesta silly season (…) seguirmos o espírito insubmisso do autor e trocarmos a estância balnear pelo rumor dos bosques e a água fresca dos rios», publicamos mais um conjunto de intervenções efectuadas no âmbito da iniciativa Porquê Ler os Clássicos? 

Ana Sofia Cardoso © Thoreau na Antígona (2017)

Conclusão (5/5/2011 00:54) 
No capítulo XVIII (“Conclusão”), que finaliza “Walden ou A Vida nos Bosques”, Thoreau volta a acentuar a sua faceta moralista, à semelhança do que fez no capítulo de abertura da obra. Mas ao contrário do capítulo I no qual o autor explica porque é que decidiu ir para o Walden, desta feita centra-se na justificação do porquê de abandonar o lago.
David Henry Thoreau foi instalar-se nos bosques à beira do lago Walden para VIVER. “Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, sendo a vida tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo o que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a aos seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então na sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão.” (p. 108)
Thoreau viveu uma experiência sublime, soube explicá-la e resolveu que a mesma estava cumprida sendo o momento de partir para outra… “Os médicos, com sabedoria, recomendam aos enfermos mudança de clima e de ambiente.” (p. 347)  “A nossa viagem é apenas um grande círculo de navegação, (…).” (p. 347), uma peregrinação ou peregrinações que não só poderão como deverão seguir vários rumos; numa descoberta, mais do que externa, do interior, uma viagem do “self”. “Olhai bem a vossa mente, nela pela certa Encontrareis mil regiões não descobertas. Percorrei-as, que assim sereis um dia Conhecedor da própria cosmografia.” (p. 348)
Que representam as conquistas ou descobertas geográficas comparadas com as dos “próprios rios e oceanos”? Thoreau desafia: “explorai as mais remotas das vossas próprias latitudes, (…) sede um Colombo de todos os novos continentes e mundos que existem dentro de vós, abrindo novos canais, não de comércio, mas de pensamento” (p. 348). Thoreau não só desafia como exprime surpresa perante os homens que “amam o solo pátrio” mas não sentem nenhuma simpatia pelo espírito que ainda lhes anima o barro” (p. 348). E, nesse contexto, exprime a necessidade do conhecimento de si próprio. Como amante dos clássicos, Thoreau segue a máxima desenvolvida no seio do movimento reformador da Grécia Antiga, a prisca theologia de Marsilio Ficino, que passa por Orfeu, Pitágoras, Sócrates, Platão e continua com os neoplatónicos e com os cristãos gnósticos: “Conhece-te a ti próprio”. “Não cabe ao homem colocar-se em oposição à sociedade, mas manter-se em atitude compatível com as leis do seu ser (…).” (p. 350)
Thoreau, que tanto importância dava aos ciclos naturais, alerta simultaneamente para a importância de não cair em rotinas, de trilhar novo caminhos pessoais. “Deixei os bosques por uma razão tão boa como aquela que para lá me levou. Talvez por me ter parecido que tinha várias vidas para viver, não podendo desperdiçar mais tempo naquela. É impressionante a facilidade com que insensivelmente caímos numa determinada rotina e estabelecermos para nós um trilho batido.” (p. 350) “A superfície da terra é macia e sensível aos pés dos homens; o mesmo acontece com as veredas por onde a mente viaja. (…) Quão arraigados os hábitos da tradição e do conformismo!” (p. 351)
“Com a minha experiência aprendi pelo menos isto: se uma pessoa avançar confiantemente na direcção dos seus sonhos, se se esforçar por viver a vida que imaginou, há-de deparar com um êxito inesperado nas horas rotineiras. Há-de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; (…). À medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão-de parecer-lhe menos complexas, a solidão deixará de ser solidão, a pobreza deixará de ser pobreza, a fraqueza deixará de ser fraqueza. Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão esse vosso trabalho; porque eles estão onde deviam estar. Agora, por baixo, colocai os alicerces.” (p. 351)
Thoreau não teme a busca de si próprio, dos seus caminhos, receia é não ser suficientemente ousado. “Temo sobretudo que a minha expressão não seja suficientemente extra-vagante, que não se aventure bastante além dos estreitos limites da minha experiência diária, de modo a adequar-me à verdade de que me convenci. Extra vagância” Esta depende de quanto estais encurralados. (…) Desejo falar sem papas na língua seja onde for; como um homem em estado de alerta a outros homens em estado de alerta; pois estou convicto de que não posso exagerar tanto a ponto de lançar as fundações de uma expressão verdadeira. Quem é que, depois de ter ouvido uma composição musical, recearia falar extravagantemente? (…) O senso mais comum é o dos homens adormecidos, que o exprimem roncando.” (p. 352)
“Deverá um homem enforcar-se por pertencer à raça dos pigmeus, em vez de ser o maior pigmeu, em vez de ser o maior pigmeu que puder? (…) Se um homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente.” (p. 353)
Ao fim ao cabo, o autor de “Walden e a Vida nos Bosques” defende uma busca ousada dos próprios rumos, daquilo em que acredita. E, nesse pressuposto, conta a história de Kouru, o “artista disposto a buscar a perfeição”, que decidiu “fazer um bastão” (p. 354) mas acabou por fazer “um novo sistema (p. 355). Thoreau defende não só a plenitude de viver, como viver a/na verdade. “Nenhum aspecto que possamos dar a um assunto nos trará por fim tanto proveito como a verdade. Só ela assenta bem. (…) Dizei o que tendes a dizer, e não o que deveis dizer. Qualquer verdade é melhor que o fingimento.” (p. 355) Voltamos aos capítulos primeiros, ao fecho do ciclo “Walden”, nos quais Thoreau elogia e “pobreza voluntária” (p. 29) e proclama a necessidade primordial de viver de forma simples: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade!” (p. 109) E VERDADE!
Thoreau não só incita ao cultivo da “pobreza como um jardim de ervas, de salva.” (p. 356) como alerta para a frivolidade e “algazarra dos meus contemporâneos” (p. 357). “Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade, Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes.” (p. 358-359) Sim, VIVER a/na VERDADE!
“Mais do que amor, dinheiro, fama, concedam-me verdade. Sentei-me a uma mesa que exibia comida sofisticada e vinho em abundância, uma companhia subserviente, mas onde não existia sinceridade e verdade; e parti faminto da mesa hostil. A hospitalidade era fria como gelo.” Esta passagem de “Walden” estava sublinhada num dos livros encontrados junto aos restos mortais de Chris McCandless. No topo da página McCandless tinha escrito à mão e em grandes letras maiúsculas a palavra “VERDADE” (Krakauer in “O Lado Selvagem”, 2010, p. 132).
Nesta conclusão talvez não sejam tão despropositadas como, a primeira vista possa parecer, as frases já proferidas neste fórum: “ Estar vivo é o contrário de estar morto” e “A verdade é o contrário da mentira”!
“A luz que ofusca os nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais dia está por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina.” (p. 362) “Compreendestes a vastidão da Terra? Onde fica o caminho para a morada da luz, e qual é o lugar da escuridão?...” (O Livro de Job)
Se tivesse de escolher o pensamento ou a frase lapidar de “Walden ou A Vida dos Bosques” seria aquela que destaquei pela primeira vez como frase favorita neste fórum: “Simplicidade, simplicidade, simplicidade! (…) Simplificar, simplificar, simplificar.” (p. 109).


Referência bibliográfica
THOREAU, Henry David. Walden ou A Vida nos Bosques. Lisboa: Edições Antígona, 1999, pp. 368. ISBN 972-608-106-8

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