quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Toca a andar



O Pedestrianismo trata-se de um desporto para todos – uma prática informal, inclusiva, recreativa, intergeracional e não competitiva – cuja prática regular comporta inúmeros benefícios para a saúde dos praticantes, designadamente por decorrer preferencialmente na “Natureza”. Mais, a prática informal de caminhada, integrada nos afazeres do dia-a-dia, mesmo (e sobretudo) em ambiente urbano, revela-se, para além de promotora da saúde dos “praticantes”, uma actividade slow, sustentável e green que pode (e deve) contribuir para mitigar a pegada ecológica diária de cada um dos cidadãos envolvidos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Princípios Fundadores

Numa época de apologias, mais ou menos sub-reptícias ou ostensivas, sobre ambientes tão virtuais quanto alienantes, na qual vigoram superficialismos estereotipados e obsessões “politicamente correctas”, em torno de equívocos (pretensos) unanimismos, virá à colação uma reflexão sumária sobre o woodcraft, ademais no dia em que se comemora o nascimento do fundador do Boy Scout Movement: Lord Baden-Powell of Gilwell. Neste contexto, serão de destacar notórias perdas, que se têm vindo a propagar paulatinamente, desde há décadas, no domínio da naturalidade, da espontaneidade e de inúmeras liberdades elementares, mormente através de discursos encomiásticos que, a par de propagandear a comercialização e a banalização da “aventura” (e não só), promovem uma obcecação pela segurança!
A evolução (ou involução?) que se verificou na prática scout, em particular, surge como um exemplo expressivo – pela autenticidade e pioneirismo deste movimento (que, por isso, constitui um autêntico landmark em matéria de vivência do “ar livre”) – daquilo que viria a afectar, em geral, toda a fenomenologia das praxis “fora de portas”. Aquele que na edição original se designou Scouting for Boys e cujo subtítulo deixava bem claro o seu objectivo – A Handbook for Instruction in Good Citizenship Through Woodcraft – transverteu-se, na versão portuguesa, numa tradução que ignorou a componente nuclear de woodcraft, deixando adivinhar um tendente sumiço da educação mediante actividades de plein air ou, melhor seria dizer, arejadas. Arejadas, desde logo, por se praticarem em espaços de ar livre (ao invés de ambientes de sala ou salão) e, além disso, sob formas o mais libertas de condicionalismos e condicionantes que possível seja.
É sob essas tendências – que alguns apenas poderão intuir dans l’air du temps (ou nem isso!) e que outros, sem dúvida mais sensíveis, sofrem inequivocamente na pele – que se chegou a uma moldura contextual pródiga em contraditórias aparências e mal-entendidos. E não estamos a pensar, de todo, apenas na propensão pelo facilitismo, artificialismo e domesticação de preceitos que se traduzem, por exemplo, na predilecção por acantonamentos – palavra utilizada na gíria esco(u)tista para designar o acto de passar a noite entre quatro paredes (numa casa) – em vez de dormir sob as estrelas. Antes fosse!...
Os tempos actuais são prolíferos no tocante a incongruências e inconvenientes que se expressam sob diversificados moldes. Desde logo, uma “paranóia regulamentar” de tudo legislar, burocratizar e normalizar, com decorrentes proibições e restrições, de acesso, de andar, de acampar, de foguear, etc.. E, pasme-se, os condicionalismos estendem-se ao como (não) estar, ser, fazer!... Num contexto de democracia inquestionável (?) é curioso constatar que nunca se verificou um tão grande cerceamento de liberdades elementares, no tocante à prática de actividades de ar livre, como agora! Tal como uma apetência e predisposição por espaços intervencionados, ao jeito de “parques de recreio” normalizados e que funcionem como uma espécie de sucedâneo daquilo que, como concepção alternativa, passará (a muito custo) por “natureza”: parques de campismo, “parques aventura”, percursos pedestres balizados, vias de escalada equipadas, arborismo, etc.. Outro fenómeno diverso, mas semelhante no que concerne às motivações/crenças de base e aos erros conceptuais destas resultantes, traduz-se na necessidade de implementar mecanismos de gestão que supostamente não só garantam como catalisem a eficiência e a eficácia, confundindo matrizes de desempenho com o próprio desempenho ou gráficos com a realidade.
Ambos os sintomas, a “paranóia regulamentar” e os “tiques tecnocráticos”, estão generalizados aos diversos sectores da sociedade e, portanto, não se restringem exclusivamente às práticas outdoor e, muito menos, ao movimento esco(u)tista ou similares. [Poderemos considerar, sem estar longe da verdade, que ambos se tratam de fenómenos globais e globalizantes, ao estilo “huxleyano”, de um Admirável Mundo Novo (Brave New World)!] No entanto, é sobretudo no âmbito do dito “desporto aventura”, e também do escotismo (ou escutismo, como se queira), que estas fenomenologias revelam roupagens, a nosso ver, bastante interessantes enquanto caso(s) de estudo, tendo em conta o desiderato original de se constituírem como “escolas de vida” baseadas na livre vivência dos vastos espaços naturais. Acresce ao aludido que ambos os sintomas ocorrem frequentemente acompanhados por uma terceira variável: uma manifesta necessidade de afirmação/poder/autoridade pessoal, muitas vezes extravasada sob a forma de “masculinidade sobredimensionada” e/ou atitudes militaristas desfasadas dos contextos em que se inserem. Aliás, foi por estas e por outras razões que surgiram, desde cedo, movimentos divergentes do Scouting como o Kindred of the Kibbo Kift.




É neste enquadramento histórico que se assiste, nos últimos anos, a uma metodologia educativa (extra)ordinária: os “educadores” ao invés de se centrarem nas crianças/jovens, estimulando o desenvolvimento concreto das suas capacidades e competências, alicerçadas num autodidactismo simultaneamente livre e responsável (em que estes decidam, façam e aprendam por si), dispersam-se em infindáveis reuniões em torno de abstracções escudadas por supostos critérios de evidência que se traduzam invariavelmente naquilo que eles entendem (ou que alguém entende por eles) ser o “sucesso”! Afinal basta que as matrizes e os gráficos estejam bonitos, devidamente preenchidos com valores que tornem patente uma expectável “excelência”.
Outro fenómeno curiosíssimo, digno do Entroncamento, consiste na aparente convivência dos opostos “aventura” e “segurança”. Na verdade tal não passa de uma risível aldrabice tendo em conta que se trata tão somente de pseudo-aventura, dentro de limites de segurança considerados perfeitamente aceitáveis! É nesse contexto, aliás, que se passou a impedir as crianças de usar facas de mato (e até canivetes!) ou machados, de subir às árvores ou simplesmente extravasarem alguma réstia de espontaneidade ou de experimentalismo digno de se chamar “aventura”. Fenómeno, aliás, que também se encontra vastamente difundido no âmbito dos designados “desportos aventura”, mormente no ramo da animação turística! É também neste contexto que será oportuno relembrar, neste Dia do Fundador, valores antigos, de que tanto carecem os tempos actuais, na linha daqueles que foram defendidos por Baden-Powell. Só assim, com força e nobreza, se poderão derrotar a fraqueza e o vício… A dureza e a vitalidade do corpo foram tão necessárias como o são hoje. A híper-natural utopia espartana, ao contrário da utopia moderna anti-natural, é tão actual quanto foi outrora e para a aplicar basta:
1. responder com simplicidade e honestidade – ser lacónico;
2. ter vontade de excelência – ser virtuoso;
3. limpar a vida de todos os detalhes supérfluos – ser simples;
4. endurecer a mente e o corpo contra o medo, a adversidade e a dor, sobrando clareza e confiança para conquistar qualquer situação – ser corajoso.
Afinal, pontos de vista altaneiros permitem amplas panorâmicas e contribuem para a largueza de vistas, enquanto que espaços confinados ou limitados são o seu contrário. Para bom entendedor meia palavra deveria bastar e contudo…




«Temos que levar gente, não a uma vida cómoda, a uma vida fácil, mas temos que ter a coragem de levá-la a uma vida difícil, a uma vida perigosa, pois só com uma vida difícil, rigorosa e perigosa, dá o homem o melhor de si próprio. É necessário obrigá-lo a saltar obstáculos. A primeira tarefa de educar é procurar varas bem altas e obrigá-lo a saltar.
Baden-Powell, o que fez nessa conferência célebre foi exactamente isso, o exigir que se ponha diante das pessoas um objecto que vá muito além daquele que lhe possibilitam as suas forças. Ele queria, para todos os rapazes e para todas as moças, quando chegassem a essa idade, uma educação que lhes temperasse a vontade, não mais gente na rua vendo gente a passar, não mais gente encostada pelas portas dos cafés, não mais gente de 20 anos vergonhosamente desocupada, passando todo o dia sem fazer coisa nenhuma, fraquíssima de carácter, fraquíssima de corpo, esperando que chegue o tempo de jantar para que chegue o tempo de dormir para que chegue o tempo de se levantar.»

Agostinho da Silva – Baden-Powell, Pedagogia e Personalidade (1961) in Textos e Ensaios Pedagógicos II, pp. 26-27


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Ética e Deontologia


O Centro de Formação da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (FCMP) vai realizar uma palestra, no dia 15 de Março, sobre a temática Ética e Deontologia em Desportos de Montanha. Esta Acção de Formação Contínua é reconhecida pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) com vista à atribuição de Unidades de Crédito para a revalidação de Títulos Profissionais de Treinador de Desporto (TPTD) nos diversos graus (I, II e III) das modalidades de Alpinismo, Montanhismo, Escalada, Pedestrianismo e Canyoning.
A acção de formação em causa visa abordar a importância da ética na condução de actividades e no treino em Desportos de Montanha, designadamente nas suas múltiplas vertentes: desportiva, ambiental e turística, entre outras. Nesse contexto, será efectuada uma explanação sobre o enquadramento, história e diversos conceitos no âmbito da ética normativa, ética ambiental e ética do desporto, tal como a aplicação da ética em situações concretas de tomada de decisões e dilemas éticos. Esta palestra vem na sequência, e é em tudo semelhante, a aula ministrada por nós, de 2014 a 2016, no âmbito da Unidade Curricular de Ética e Deontologia Profissional, do sexto semestre da licenciatura de Treino Desportivo, da Escola Superior de Desporto de Rio Maior (ESDRM).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A Flor do Caminho (X)


Mais uma edição d'A Flor do Caminho no Parque Florestal de Monsanto, dia 4 de Março, das 16.00 às 19.00...

«Caminhamos na natureza em presença.

Atentos ao trilho interior, respiramos profundamente, sentimos o contacto dos pés com a terra, a força da gravidade.

Através da prática do Chi Kung cultivamos a energia vital, relaxamos, fortalecemos e libertamos o corpo e a mente.

Os sentidos abrem, receptivos à beleza que se oferece a cada instante.

No silêncio tudo acontece…»

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A paisagem


«Nascem de mim árvores, flores; e os mortos irrompem, vivos, do meu ser. Desapareço numa turba de fantasmas. Já não sou eu; sou os outros. Eis o grito de Deus ao criar o mundo. Sou os outros, e é outra esta paisagem que me cerca de aparições. Transfiguro-me e tudo se transfigura.»

Teixeira de Pascoaes (1928): Livro de Memórias



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Um encantamento especial

Aquilo que poderá ser encarado, à primeira vista, como meros «aphorismes sur la lune et autres pensées sauvages» é muito mais do que isso… Trata-se de viajar no tempo presente, como se de um regresso ao passado se tratasse, e de uma forma original, como que num retorno às origens. E, todavia, numa clara manifestação de saudades do futuro! Estar preparado para caminhar com elevados níveis de atenção e... tornar-se tribal?


Brian Brogan © The Ones Who Came (The Painted History, 2015)


La Science du concret

«Chaque chose sacrée doit être à sa place», notait avec profondeur un penseur indigène (Fletcher 2, p. 34). [] L’invocation qui accompagne la traversée d’un cours d’eau se divise en plusiers parties, correspondant respectivement au moment où les voyageurs mettent les pieds dans l’eau, où ils les déplacent, où l’eau recouvre complètement leurs pieds; l’invocation au vent separe les moments où la fraîcheur est perçue seulement sur les parties mouillées du corps, puis ici et là, enfim sur tout l’épiderme: «alors seulement, nous pouvons progresser en sécurité» (id., pp. 77-78). Comme le precise l’informateur, «nous devons adresser une incantation spéciale à chaque chose que nous rencontrons, car Tirawa, l’esprit suprême, reside en toutes choses, et tout ce que nous recontrons en cours de route peut nos secourir… Nous avons été instruits à prêter attention à tout ce que nous voyons» (id., pp. 73-81).
Ce souci d’observation exhaustive et d’inventaire systématique des rapports et des liaisons peut aboutir, parfois, à des résultats de bonne ténue scientifique []
[LEVI-STRAUSS, 1962: 22-23]

En citant un extrait de ses carnets de route, Conklin a voulu illustrer ce contact intime entre l’homme et le milieu, que l’indigène impose perpétuellement à l’ethnologue:
«A 0600 et sous une pluie légère, Langba et moi quittâmes Parina en direction de Binli… A Arasaas, Langba me demanda de découper plusiers bandes d’écorce, de 10 x 50 cm, de l’arbre anapla kilala (Albizia procera (Roxb.) Benth.) pour nous préserver des sagsues. En frottant avec la face interne de l’écorce nos chevilles et nos jambes, déjà mouillées para la végétation dégouttante de pluie, on produisait une mousse rose qui était un excellent répulsif. Sur le sentir, près d’Aypud, Langba s’arrêta soudain, enfonça prestement son bâton en bordure du sentier, et déracina une petite herbe tawag kûgun buladlad (Buchnera urticifolia R. Br.), qui, me dit-il, lui servirait d’appât… pour un piège à sangliers. Quelques instants plus tard, et nous marchions vite, il fit un arrêt semblable pour déraciner une petit orchidée terrestre (difficile à repérer sous la végétation qui la couvrait) appelée liyamliyam (Epipogum roseum (D. Don.) Lindl.), plante employée pour combattre magiquement les insectes parasites des cultures. A Binli, Langba eut soin de ne pas abîmer sa cueillette, en fouillant dans sa sacoche de palmes tressées pour trouver du apug, chaux éteinte, et du tabaku (Nicotiana tabacum L.), qu’il voulait offrir aux gens de Binli en échange d’autres ingrédients à chiquer. Après une discussion sur les mérites respectifs des variétés locales de bétel-poivre (Piper betle L.), Langba obtint la permission de couper des boutures de patate douce (Ipomoea batatas (L) Poir.) appartenant à deux formes végétatives différentes et distinguées comme kamuti inaswang et kamuti lupaw… Et dans le carré de camote, nous coupâmes 25 boutures (longues d’environ 75 cm) de chaque variété, consistant en l’extrémité de la tige, et nous les enveloppâmes soigneusement dans les grandes feuilles fraîches du saging saba cultivé (Musa sapientum compressa (Blco.) Teodoro) pour qu’elles gardent leur humidité jusqu’à notre arrivée chez Langba. En route, nous mâchâmes des tiges de tubu minama, sorte de canne à sucre (Saccharum officinarum L.), nous nous arrêtâmes une fois pour ramasser quelques bunga, noix d’arec tombées (Areca catechu L.), et, une autre fois, pour cueillir et manger les fruits, semblables à des cerises sauvages, de quelques buissons de bugnay (Antidesma brunius (L.) Spreng.). Nous atteignîmes le Mararim vers le milieu de l’après-midi, et, tout au long de notre marche, la plus grande partie du temps avait passé en discussions sur les changements dans la végétation au cours des dernières dizaines d’années.» (Conklin I, pp. 15-17.)
[LEVI-STRAUSS, 1962: 18-19]

Cet appétit de connaissance objective constitue un des aspects les plus négligés de la pensée de ceux que nous nommons «primitifs». S’il est rarement dirigé vers des réalités du même niveau que celles auxquelles s’attache la science moderne, il implique des démarches intellectuelles et des méthodes d’observation comparables.
[LEVI-STRAUSS, 1962: 13]

Cette science du concret devait être, par essence, limitée à autres résultats que ceux promis aux sciences exactes et naturelles, mais elle ne fut pas moins scientifique, et ses résultats ne furent pas moins réels.
[LEVI-STRAUSS, 1962: 30]


Mais n’est-ce pas que la pensée magique, cette «gigantesque variation sur le thème du principe de causalité», […], se distingue moins de la science par l’ignorance ou le dédain du déterminisme, que par une exigence de déterminisme plus impérieuse et plus intransigeante, et que la science peut, tout au plus, juger déraisonnable et précipitée?
«Considérée comme systéme de philosophie naturelle, elle [witchcraft] implique un théorie des causes: la malchance résulte de la sorcellerie, travaillant de concert avec les forces naturelles. […]»
Entre magie et science, la difference première serait donc, de ce point de vue, que l’une postule un déterminisme global et integral, tandis que l’autre opère en distinguant des niveaux don’t certains, seulement, admettent des forms de déterminisme tenues pour inappicables à d’autres niveaux.
[LÉVI-STRAUSS, 1962: 23-24]

Brian Brogan © The Ones Who Came (The Painted History, 2015)

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A ciência do concreto

“Cada coisa sagrada deve estar em seu lugar”, notava, com profundeza, um pensador indígena (Fletcher 2, p. 34). [] A invocação que acompanha a travessia de um curso de água se divide em várias partes, correspondendo, respectivamente, aos momentos em que os viajantes põem os pés na água, em que mudam de lugar e em que a água lhes cobre completamente os pés; a invocação ao vento separa os momentos em que o frescor é percebido apenas pelas partes molhadas do corpo, depois aqui e ali, e enfim, por toda a epiderme: “somente então podemos prosseguir com segurança” (id., pp. 77-78). Como deixa bem claro o informante, “devemos dirigir um encantamento especial a cada coisa que encontramos, pois Tirawa, o espírito supremo, reside em todas as coisas e, tudo o que encontramos em nosso caminho pode socorrer-nos (…). Fomos instruídos para prestar atenção a tudo o que vemos” (id., pp. 73, 81).
Esta preocupação da observação exaustiva e do inventário sistemático das relações e das ligações pode levar, às vezes, a resultados de boa ordem científica []
[LEVI-STRAUSS, 1976: 30-31]

Citando um extrato de suas notas de viagem, Conklin quis ilustrar esse contacto íntimo entre o homem e o meio, que o indígena impõe, perpetuamente, ao etnólogo:
“A 0600 e sob uma chuva fina, Langba e eu deixamos Parina na direção de Binli (…). Em Arasaas, Langba me pediu para cortar várias tiras de casca, de 10 x 50cm, da árvore anapla kilala (Abizzia procera (Roxb.) Benth.) para preservar-nos das sanguessugas. Esfregando, com a face interna da casca, os tornozelos e pernas, já molhados pela vegetação, gotejante da chuva, formava-se uma espuma rósea, que era excelente repulsivo. No caminho, perto de Aypud, Langba parou, de repente; enfiou, com presteza, seu bastão na beira do caminho e arrancou, pela raiz, uma erva, tawag kugun buladlad (Buchnera urticifolia R. Br.) que, me disse ele, lhe serviria de isca (…) em uma armadilha para javalis. Alguns instantes mais tarde, e nós andávamos depressa, ele fez uma parada igual, para arrancar uma orquideazinha terrestre (difícil de ver sob a vegetação que a cobria), chamada lyamliyam (Epipogum roseum (D. Don.) Lindl.), planta empregada para combater, magicamente, os insetos parasitas das culturas. Em Binli, Langba teve o cuidado de não estragar sua apanha, remexendo uma sacola de palmas trançadas, para encontrar apug, cal extinta e tabaku (Nicotiana tabacum L.), que queria oferecer à gente de Binli, em troca de outros ingredientes para mascar. Depois de uma discussão sobre os respectivos méritos das variedades locais de bétel-pimenta (Piper betle L.), Langba obteve permissão para cortar mergulhias de batata-doce (Ipomoea batatas (L.) Poir.), pertencentes a duas formas vegetais diferentes e classificadas como kamuti inaswang e kamuti lupaw (…). E no canteiro de camote, cortamos 25 mergulhias (com cerca de 75cm de comprimento) de cada variedade, retiradas da extremidade da haste, e as enrolamos, cuidadosamente, em grandes folhas frescas de saging saba cultivado (Musa sapientum compressa (Blco.) Teodoro) para que conservassem a umidade até chegarmos de volta à casa de Langba. Pelo caminho, mastigamos hastes de tabu minama, espécie de cana-de-açucar (Saccharum officinarum L.); paramos uma vez, para colher alguma bunga, nozes-de-areca caídas (Areca catechu L.) e, uma outra vez, para colher e comer os frutos, semelhantes a cerejas selvagens, de algumas moitas de bugnay (Antidesma brunius (L.) Spreng.). Atingimos Mararim no meio da tarde e, ao longo de nosso caminho, a maior parte do tempo foi passada com discussões sobre as mudanças da vegetação, no curso das últimas dezenas de anos.” (Conklin I, pp. 15-17)
[LEVI-STRAUSS, 1976: 26-27]

Este apetite de conhecimento objectivo constitui um dos aspectos mais negligenciados do pensamento daqueles que nós chamamos “primitivos”. Se é raramente dirigido para realidades do mesmo nível que aquelas às quais se liga a ciência moderna, implica diligências intelectuais e métodos de observação semelhantes.
[LEVI-STRAUSS, 1976: 21]

Esta ciência do concreto devia ser, essencialmente, limitada a outros resultados que os prometidos às ciências exatas e naturais, mas não foi menos científica e seus resultados não foram menos reais.
[LEVI-STRAUSS, 1976: 37]

Mas não será que o pensamento mágico, essa “gigantesca variação sobre o tema do princípio da causalidade”, […], se distingue menos da ciência pela ignorância ou pelo desprezo do determinismo, do que por uma exigência de determinismo mais imperiosa e mais intransigente e que a ciência pode, quando muito, julgar insensata e precipitada?
“Considerada como sistema de filosofia natural, ela (witchcraft) implica uma teoria das causas: a infelicidade resulta da feitiçaria, que trabalha em combinação com as forças naturais. […]”
Entre magia e ciência, a diferença primordial seria, pois, deste ponto de vista, que uma postula um determinismo global e integral, enquanto que a outra opera distinguindo níveis, dos quais apenas alguns admitem formas de determinismo tidas como inaplicáveis a outros níveis.
[LÉVI-STRAUSS, 1976: 31-32]

Brian Brogan © The Ones Who Came (The Painted History, 2015)


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LÉVI-STRAUSS, Claude. La pensée sauvage. Paris: Librairie Plon, 1962, pp. 352. ISBN 978-2-266-03816-4
LÉVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976, pp. 334.

Brian Brogan © The Ones Who Came (The Painted History, 2015)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Walk me




If you see me, move my body
That’s a sign too, that’s a sign too
If you see me, move my body
That’s a sign too, that’s a sign too

Boom, boom
Boom, boom
Boom, boom
Boom, boom
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s society

Can you feel me, shake my body
From left to right, there's no faking
The shaking goes like boom boom, boom boom
You go boom boom, boom boom
I go boom boom, boom boom
You go boom boom, boom boom

It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society, it’s a sign
It’s society

You want me
You want me
You want me
Society, is anxiety
It’s a misery, it’s a myth
Society, is anxiety
It’s a misery, it’s a myth
I go boom boom
You go boom boom
Fail
I go boom boom
You go boom boom, boom boom

If you see me, move my body
Move your body, it’s so silent
Go boom boom

Jenny Lee Lindberg

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Pedestrianism

E para aqueles que pensam que o Pedestrianismo é algo de recente, aqui fica o link de um “livrinho” que deita por terra tais mitosTrata-se da obra de Estwick Evans (1787-1866) intitulada Evans's Pedestrious Tour of Four Thousand Miles – 1819. Como o título indica, o "rapaz" apreciava percursos de longo curso…

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

W and W

WOODCRAFT
A youth movement with significant pagan elements, Woodcraft was founded by Canadian-American nature writer ErnestThompson Seton (1860-1946) in 1902, at his home in Cos Cob in suburban Connecticut. Concerned about the impact of industrialization and urban life on youth, Seton launched the movement as an attempt to bring young people into contact with nature and to teach values of self-discipline and cooperation. Seton was an early supporter of Native American rights, and drew on Native American traditions in launching his movement.
The movement started out as a single ‘tribe’ of 42 boys in Cos Cob, but expanded dramatically over the following years, reaching a membership of 200,000 by 1010. After a brief and unsuccessful alliance with the Boy Scouts of America, Seton set up the Woodcraft League, an international organization, in 1915. Woodcraft tribes had groups for different age levels and a detailed program of activities and honors. A especial inner circle for adults, the Red Lodge, had three degrees of initiation and a spiritual dimension focused on what Seton called the Red God, the spirit of wild nature and the “Buffalo Wind” that called too-civilized humanity back to its roots in living nature.
The Woodcraft League gained its first overseas members in the year of its founding, when a group of English Quakers, dissatisfied with the militaristic elements of Lord Baden-Powell’s Boy Scouts, turned to Woodcraft instead and launched the Order of Woodcraft Chivalry, the first British Woodcraft group. In 1919 there was another addition to Woodcraft ranks as John Hargrave, a charismatic Scout leader, broke with the Boy Scouts and founded a Woodcraft group called the Kindred of the Kibbo Kift (“kibbo kift” being an old Kentish dialect phrase for “proof of strength”). Another Woodcraft group, the Woodcraft Folk, broke away from Hargrave’s group in 1924. All three of the British Woodcraft groups set aside Seton’s Native-American symbolism in favor of a mixture of Celtic and Anglo-Saxon imagery more appropriate to British youth. In the process, they helped to lay the foundations of modern Wicca. See Wicca.
The Woodcraft movement reached the peak of its popularity in the 1920s and 1930s, with groups active in some 20 countries around the world. The Second World War and the period of massive industrialization and Cold War militarism that followed it, however, brought a steep decline in the movement. After Seton’s death in 1946 the Woodcraft League went out of existence, and the few surviving Woodcraft groups in the second half of the twentieth century continued in isolation. Woodcraft today remains an active but very small movement, with a variety of local groups linked mostly by the Internet. Whether it will survive or flicker out in the twenty-first century remains to be seen.
Further reading: Hargrave 1927, Seton, 1920, Seton 1926.
[GREER, 2013: 541-542]

"Seton Indians"(1909)


KKK on an Easter Hike (c.1931)


WICCA
(…) Gardner had close connections to the English branch of woodcraft, a youth movement founded around the beginning of the twentieth century by Canadian-American nature writer Ernest Thompson Seton (1860-1846). Starting in 1915, when Quaker groups opposed to the militarism of Lord Baden-Powell’s Boy Scouts imported Woodcraft as an alternative, two Woodcraft organizations – the Order of Woodcraft Chivalry and the Kindred of the Kibbo Kift – had an active presence in the New Forest area where Gardner claimed to have worshipped with surviving witches’ covens. Similarities between Wicca and English Woodcraft ceremonies from the 1920s even include references to the earth as a goddess and to a horned god of nature, and Seton’s Woodcraft included an inner, initiatory branch for adults, the Red Lodge, with three degrees of initiation.
[GREER, 2013: 536]


Cernunnos on the Gundestrup Cauldron (II-I BC)

Gerald Gardner (1884-1964)


Bibliographic references
GREER, John Michael. The Element Encyclopedia of Secret Societies. London: Harper Element, 2013, pp. 568. ISBN 978-0-00-793145-3

*
HARGRAVE, John (1927). The Confession of the Kibbo Kift (London: Duckworth)
SETON, Ernest Thompson (1920). Two Little Savages (Garden City, NY: Doubleday)
SETON, Ernest Thompson (1926). The Book of Woodcraft and Indian Lore (Garden City, NY: Doubleday)




domingo, 5 de fevereiro de 2017

Lisbon night walk

Pedro Cuiça © Martinho da Arcada (Lisboa, 4/02/2017)

Depois de um interregno, de mais de um mês, nas minhas caminhadas diárias por Lisboa, foi com uma enorme emoção que palmilhei ontem à noite o trajecto entre o Espaço Salitre-Amaro e o restaurante Martinho da Arcada. Para quem está habituado a andar a pé, pelo menos uma dezena de quilómetros por dia, e cuja praxis se baseia na operatividade da “ciência do concreto”, estar parado a recuperar de uma fasceíte plantar não é nada… “fácil” (!). Por isso a extrema satisfação que vivenciei nesse trajecto, com os sentidos invulgarmente despertos, não só pela liberdade do sedentarismo quebrado mas também pela frescura da noite chuvosa, pelas luzes e pelo bulício metropolitano,… Ademais estando esse percurso enquadrado no workshop de Pedro Teixeira da Mota sobre "Iniciação ao Caminho Esotérico e Espiritual de Fernando Pessoa", que decorreu, das 9.30 às 19.30, no Espaço Salitre-Amaro. Para mim, tudo fez imenso sentido: após especulativas caminhadas e metafóricos caminhos, fechar o dia com “chave de ouro” naquele que foi um dos locais acarinhados pelo grandioso Pessoa, acompanhado por pessoas extraordinárias. Bem hajam.

Pedro Cuiça © Martinho da Arcada (Lisboa, 4/02/2017)

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Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por planos desertos
Sem ter horizontes
Caminhais libertos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.

Fernando Pessoa (24/10/1932)
in Poemas Esotéricos de Fernando Pessoa (Planeta Manuscrito, 2009, p. 16)