sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Equinócio


E hoje começa a minha estação preferida: o Outono.  É nesta época da roda do ano que regressa a frescura do ar, acompanhada dos característicos subtis e ousados aromas que enriquecem os espaços de plein air… Viva o Equinócio.

«Vem onde nós o Outono
Os ouriços já abrem.
Sinto-o chegar contente
Da eterna viagem
Enredado entre as folhas
Estreando friagem»
(A.M. Fdes.)

© da net (?)

O caminho do deserto


E quando lhe dá a escolher continuar a viver na felicidade, na ilusão, no conforto, na satisfação e no prazer de Matrix, ou perder tudo isso, mas descobrir a Verdade sobre o “outro mundo”, que ele sabe ser um deserto (a Terra era árida e desolada, governada por máquinas no ano 2192), Neo escolhe a pílula vermelha. Como diz Frost no seu poema: “Escolhi o caminho menos percorrido. E isso fez toda a diferença.

Escolheu como Descartes, conhecer a Verdade, “o Deserto do Real”.

Mas porque é o Real um deserto? Justamente pelas razões referidas acima: sair do ilusório mundo dos sentidos onde tudo é agradável e cómodo e, onde, apesar da dor, do sofrimento e da morte, se vive a ilusão dos sentidos e de que se pode construir algo de bom e belo é, de facto, um deserto.

A realidade do desapego a tudo isso, do desprendimento deste mundo interiormente solitário e da entrega a um outro, desconhecido, de que apenas se intui nele residir a Verdade, representa um verdadeiro deserto para quem está na Matrix, ou seja, para a actual humanidade perdida na ignorância e na descrença, crendo viver na Realidade.
O Nada, “o deserto interior”… Relembremos aqui o desapego e desprendimento em que culmina a iniciação do adepto Rosacruz ou de Descartes, as suas meditações e reflexões, os anos que passou longe do “ruído” do mundo, no “seu deserto”, ao qual tanto desejava regressar durante a sua trágica estadia na Suécia.

Na cena em que vai a caminho de casa do Oráculo, ao passar por um restaurante, Neo exclama subitamente: “meu Deus, eu costumava comer ali um spaghetti muito bom”. E pensa: “tenho essas lembranças da vida… nada disso aconteceu…

Este episódio induz a questionar como é que o Real se distingue do mundo virtual. Aqui entra por sua vez, a noção de espaço: no virtual ele não existe salvo nas mentes. Mas existe o ciberespaço. E será este real? A espacialização do real foi rejeitada por alguns filósofos, como Platão, para quem os algarismos e as Ideias, por serem eternas e imutáveis e sendo origem do nosso mundo material e do nosso conhecimento dele, são mais reais do que os objectos localizáveis no espaço. Também Kant considera, que o espaço não é uma coisa em si, mas depende de como se intui o mundo.
[AZEVEDO, 2015: 473-474]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
AZEVEDO, Teresa Mira de. A vida misteriosa de René Descartes. Lisboa: Chiado Editora, 2015, pp. 556. ISBN 978-989-51-5952-9


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Ar Livre (II)

Qué es el Aire Libre?

Un deseo instintivo de evasión, de espacios verdes, de amplios horizontes permanece latente en el corazón del hombre. El Aire Libre es una necesidad, y para llenar esta necesidad nada mejor que el Excursionismo y su compañero inmediato el Camping.
(…) El Aire Libre es la válvula de escape del hombre moderno. Reencontrarse de vez en cuando en el seno de la Naturaleza, escapar por algunas horas a los ruidos de la ciudad, volver a escuchar la lección de la tierra, de los árboles, del cielo, es el único medio de escapar a la esclavitud de la vida moderna. [JORSIN, 1963: 9-10]

© DR

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
JORSIN. Manual del Excursionista y del Acampador. Barcelona: Editorial Sintes, 1963, pp. 228.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Ar Livre

© DR

«Desde que os pés tenham deixado o asfalto e o betume, e pisem a argila, já não pertencem a um indivíduo mas a um Homem.»
Jean Hureau (in PEREIRA, 1963:46)


QU’EST-CE QUE LE PLEIN AIR ?

Si le terme est nouveau, de tous temps la chose exista.
Un désir instinctif d’évasion, de verdure, d’horizon demeure au cœur de l’homme. Le Plein Air est un besoin.
C’est lui que recherche la midinette soignant amoureusement le pot de géranium ou le pied de clématite grimpant à sa fenêtre.
C’est lui qui fait la vogue des chansons de carrefour, ces chansons qui parlent d´étoiles, de ciel rose et de fleur bleue : à travers les mots stupides, inconsciemment, le citadin retrouve une vision de la Nature qu’il a oubliée. Derrière le prétexte de la partie de plaisir, n’y a-t-il pas, au fond, dans les « parties à Robinson », dans les dimanches de guinguettes « au bord de l’eau », la soif de partir, de voir du vert, de sentir sous ses pieds la vraie terre ? Il y a de cela dans la mentalité du banlieusard. Cela explique également toute une partie du romantisme : jardins aux fausses grottes, aux naïves cascades artificielles ; époque des « promenades en bateau » et des « clairs de lune ». Lorsque dans le salon rococo aux sièges masqués de housses poussièreuses, la fille anémique se pâmait à la lecture des vers de M. de Lamartine, la beauté de la poésie n’était que pour une part dans son émotion qui, à son insu, avait surtout pour cause l´évocation en cette atmosphère renfermée de la nature belle et libre…

Sur las plage sonore où la mer de Sorrente
Déroule ses flots bleus aux pieds de l’oranger…

C’est cependant à cette époque que remontent les débuts timides, mais téméraires alors, de l’alpinisme et que quelques isolés comme Toppfer se tournèrent vers la Nature pour trouver une solution au problème moderne.
[HUREAU, 1946 : 10]

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HUREAU, Jean. Plein Air et Camping – Manuel Pratique. Paris : Les Éditions J. Jusse, 1946, pp. 384.
PEREIRA, Alberto Feliciano Marques. Manual de Campismo – Parte I: Espírito Campista – Aspectos Doutrinários Actuais do Campismo. Lisboa: 1963, pp. 230.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O Silêncio

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«O silêncio e as palavras em voz baixa são prova de experiência no campo e no caminho. São asnos e idiotas os que vão para o campo para berrar.»
[VICENTE, 1936: 81]


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
VICENTE, Alípio da Silva. Vade Mecum do Scout – Auxiliar do Escuteiro. Lisboa: Ferreira e Franco, 1936, pp. 164.

© Pedro Cuiça (2017)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Campismo Pedestre

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«Existem várias modalidades de Campismo, – atendendo ao meio de transporte utilizado pelos campistas para se conduzirem às regiões onde desejam acampar ou para percorrer estas. Não falando no Campismo em esquis, que no nosso país só é possível na Serra da Estrela e no inverno, e que não é mais, por assim dizer, do que uma variante do Campismo pedestre, – os mais utilizados são êste último, o Auto-campismo e o Ciclo-campismo.
No Auto-campismo, como o nome indica, o campista utiliza-se de um automóvel, e só dêste ou atrelando-lhe uma roulotte, – carro de duas ou quatro rodas e de maiores dimensões, que uns querem apenas para transportar o material e outros como estúdio confortável e elegante onde viver no campo.
Sinceramente confessamos não ser entusiastas desta modalidade de Campismo, nem encontrar-lhe as vantagens de qualquer das outras; mas aceitâmo-la, ainda assim, desde que os seus cultores se não esqueçam nunca de que: – o automóvel não deve servir-lhes para percorrer as regiões que escolheram, e sim apenas para os conduzir a estas, ajudando-os a vencer alguns quilómetros de estrada sem interêsse; não devem fazer-se acompanhar de comodidades da vida moderna senão até um limite que lhes não impeça um íntimo contacto com a Natureza; os cobertores e agazalhos abundantes apenas servem para, preservando-os melhor dos frios mais intensos, lhes permitir gozar em tôda a sua plenitude a beleza dos crepúsculos campestres. Além disso… «não se confunda o Auto-campismo com essas roulottes faustuosas, diante das quais ficam embevecidos os amadores do confôrto. Pela nossa parte, jámais pensámos em levar para as nossas excursões as pequenas coisas que fazem o bem estar de todos os dias, grandes dicionários de biblioteca ou os retratos de família, mas tão simplesmente a família. Essas fantasias ruinosas, de luxo deslumbrante, com estúdio em madeira das Ilhas, seduzirão alguns milionários igualmente exóticos, aliás bem depressa aborrecidos das suas viaturas, que apenas podem percorrer as estradas nacionais, – precisamente as menos seductoras, as menos pitorescas e as menos numerosas, como todos sabem» (Renaud Icard).
Quanto ao Ciclo-campismo, – êsse aceitâmo-lo melhor e quási o recomendamos até, porquanto tem já vantagens aproximadas às do pedestrianismo, pois demanda esfôrço por parte do campista e, uma das maiores alegrias do verdadeiro Campista, que é também um dos seus mais benéficos efeitos, está em tudo nele ser obtido à custa de esfôrço. O esfôrço sincero, desejado, livremente aceite e disciplinarmente realizado, foi sempre, é e será o verdadeiro prazer!
O Campismo pedestre, que oferece a vantagem educativa de demandar esfôrço físico e até moral, e que tem ainda a valorizá-lo o facto de constituir o único meio de percorrer as regiões mais belas, que são precisamente as de acesso mais difícil, – é a modalidade campista que consideramos a melhor debaixo de todos os aspectos. «O campismo pedestre é o desporto fundamental dos amantes da Natureza, o meio mais completo de bem viajar» (J. Loiseau). Por isso é do seu ponto de vista que partimos para a organização dêste Manual, e à arte de viajar a pé dedicaremos um outro trabalho, já em preparação, a que chamaremos «excursionismo».» [NOBRE, 1938: 16-18]

Ver: Algo…

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
NOBRE, Antero. Campismo – Manual Técnico. Lisboa: Roberto S. Canuto, 1938, pp. 264.  

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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O carro do Armando

«O Carro do Armando: um bocadinho a pé, um bocadinho andando!» 

Andar e/ou correr tornou-se para ele num meio de transporte primário, como o carro para os "urbanóides": para todo o lado onde vá, vai a passo ou em corrida; «com tão pouco equipamento como um caçador neolítico, e com a mesma despreocupação quanto ao destino, por muito distante que seja.»

© da net (?)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Turismo Desportivo

© DR

A la idea del camping deporte en sí mismo, la definición que lo considera adyuvante de otro deporte agrega la de su alianza tan natural con las otras actividades de la vida al aire libre. Hoy día, no se hacen solamente marchas, sino travesías por etapas con campings intermedios; muchos piragüistas se han convertido en piragüistas acampadores, y el ciclo-camping ha encontrado numerosos adeptos entre los cicloturistas. También el ski se presta a un audaz camping sobre la nieve, a condición de estar provisto de una buena tienda isotérmica. Es por esto que alguien ha calificado de «supersport» al camping porque debe ser considerado como deporte en el más amplio sentido de la palabra. En este sentido, deporte no significa otra cosa que un ejercicio físico practicado como juego de diversión. No debemos confundir este concepto con el de competición deportiva que sin embargo se tiende hoy en día a incluir en la significación de la palabra deporte.
Para nosotros, existe un hecho mucho más característico de la naturaleza del camping, y es que los diferentes deportes de los cuales él es el adyuvante tienen todos un mismo objectivo: la práctica del turismo. El camping es pues el deporte turístico por excelencia, y podríamos definirlo así: medio de turismo deportivo que permite un contacto más estrecho con la naturaleza mediante la utilización de la tienda como abrigo. [JORSIN, 1966: 12-13]


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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
JORSIN. Camping. Barcelona: Editorial Sintes, 1966, pp. 280.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Guia da Marcha

 © da net (?)

O Senhor (!) mandou-nos parar e perguntou pela guia da marcha. Respondemos que o nosso intuito era meramente fazer uma caminhada, passear, e que, portanto, não iríamos praticar pedestrianismo.
– Então e quem é o responsável? – ripostou.
– Bem, na verdade não existe nenhum “chefe”. Somos apenas um grupo de amigos que, na base do livre associativismo, decidimos vir passear.
– Mas têm de ter uma guia de marcha porque…
– Sim nós sabemos que, de há uns tempos a esta parte, as actividades de pedestrianismo, organizadas por clubes, mesmo que a título benévolo, terão de contar com um ou mais “guias”. Na verdade, detentores do Título Profissional de Treinador de Desporto… de pedestrianismo; apesar de as entidades profissionais, na prática, não precisarem de trabalhadores com qualquer tipo de titulação. A p--- da loura, a coberto de uma pretensa “legitimidade legislativa”!
– Vamos lá ver o respeito!...
– Desculpe. Como lhe disse, somos apenas companheiros que vão aproveitar o dia fazendo uma caminhada na natureza. E, apesar das mochilas e de todo este aparatoso equipamento que está a ver, não vamos acampar, nem fazer uma fogueira ou sequer foguear. Tendo em conta que temos o país a arder, vai para mais de dois meses, o melhor é mesmo estar quieto :) Já para não falar das proibições de acampar ou até de bivacar, de fazer fogueiras e sabe-se lá que mais.
– Bem, vamos lá ao que interessa: a guia de marcha?
– Mas houve alguma denúncia? Agora só o que faltava era vir a ASAE! Não temos nenhuma guia, nem tal seria suposto.
– Para transportarem essa carga terão obrigatoriamente de possuir uma guia de transporte ou, caso contrário, terei de vos aplicar a respectiva coima.
– Ah! Já podia ter dito. Nestas matérias ou co(i)mem todos ou não co(i)me ninguém :p
O Senhor A-gente [salvo seja!], que nos mandou encostar, afinal não nos estava a indagar sobre uma “guia da marcha”. O problema legal era outro. A suposta origem do imbróglio centrava-se no recheio amontoado que se encontrava na bagageira da carrinha!

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Iss'é qu'era bom

«Não somos como aqueles que só chegam a formar pensamentos no meio dos livros – o nosso hábito (êthos) é pensar ao ar livre, caminhando, saltando, escalando, dançando, de preferência sobre as montanhas solitárias ou à beira mar, aí onde mesmo os caminhos se tornam meditativos.»
Friedrich Nietzche: A Gaia Ciência
[Die fröhliche Wissenschaft (1882)]



terça-feira, 22 de agosto de 2017

Um deus pedestre

«Este Filho, por outro lado, que passa fome, que sofre sede, que se cansa, que fica triste, que está ansioso, que é importunado e mortificado, que tem de tolerar apoiantes que não o entendem e opositores que não o respeitam – que espécie de deus é ele? É um deus a uma escalada demasiado humana, é o que ele é. Há milagres, sim, principalmente de natureza médica, uns poucos para satisfazer os estômagos humanos esfomeados; no máximo acalma uma tempestade, caminha um pouco sobre a água. Se isto é magia, é uma magia menor, ao nível dos truques de cartas. Qualquer hindu é capaz de fazer cem vezes melhor. Este Filho é um deus que passava a maior parte do tempo a contar histórias, a conversar. Este Filho é um deus que caminhava, um deus pedestre – e num lugar quente, ainda por cima –, com um andar como o andar de qualquer humano, com as sandálias por cima das pedras ao longo do caminho; e, quando usava um meio de transporte, era um burro vulgar. Este Filho é um deus que morreu em três horas, com queixumes, arquejos e lamentos. Que espécie de deus é este? O que há de inspirador neste Filho?
O amor, disse o padre Martin.» [MARTEL, 2012: 70]

Pedro Cuiça © Catedral de Sevilha (2017)


REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA
MARTEL, Yann. A Vida de Pi. Barcarena: Editorial Presença, 2012, 11ª ed., pp. 322.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

D'o Silêncio

Nicholas Roerich © O Silêncio do Filósofo (1940)


«As palavras que jamais foram pronunciadas são as flores do silêncio.»
Provérbio Japonês

«(…) our chiefest secret place of silence must be within the soul rather than without.»
Cisneros (1929: 196)

«A música é a irmã perfeita do silêncio.»
John O’Donahue (Facebook via Alexandre Gabriel)

O primeiro sentido da palavra “silêncio” (do latim silentium) é a capacidade de “calar-se”, de permanecer mudo (SMEDT, 2001: 11). Algo aparentemente fácil, mas que, na verdade, implica um resoluto autodomínio: conhecimento, posse e dom de si mesmo (VASTO, 1978: 119). Calar-se serve, desde logo, para guardar segredo. O segredo ou reserva será um meio de defesa… Como diz a assertiva sabedoria popular: «Pela boca morre o peixe». É costume considerar-se que há três coisas que as pessoas têm dificuldade de fazer e manter segredo é uma delas, a par de conhecer-se a si próprio e vencer o apetite. Atente-se que secretismo não se trata de mentir por omissão e muito menos deliberadamente. Um “Homem secreto” deverá ser precisamente o contrário de um hipócrita, de um “homem da mentira” (na acepção de Scott Peck, 2001): este esconde os defeitos e as culpas, aquele o que tem de melhor (VASTO, 1978: 129).
O silêncio é também essencial no âmbito da aprendizagem em determinadas ordens esotéricas, como por exemplo acontecia entre os antigos pitagóricos, e é por isso que os neófitos são convidados «a meditar, ouvir, calar-se» (SMEDT, 2001: 14). «O silêncio é de ouro e a palavra de prata»; i.e., não se trata de “se calar”, expressão deselegante e ademais incorrecta entre Homens de Bem; trata-se apenas e tão-somente de exercer o justo equilíbrio, da prudência e da temperança, no uso da palavra e do silêncio. Trata-se de optar, deste modo, por não falar, parafraseando um dito Sufi, «se a palavra que vai dizer não for mais bela do que o silêncio». Tal como se pode decidir proferir palavra caso haja algo a afirmar que mereça realmente ser ouvido. Deste modo se refina a fortaleza de carácter, apartando-se de “palavreado” inoportuno ou, mais grave, indecoroso.
O silêncio é igualmente a base da introspecção, meditação, labor sobre si próprio. É o silêncio que propicia o ambiente adequado ao «Ora et Labora» de S. Bento (séc. VI): a “acção directa”, simultaneamente operativa e especulativa, sobre o templo ou laboratório (de labor + oratório) de si mesmo, lugar de profundas operações e laboriosas transformações no âmbito do aprimorar da “matéria”. Silêncio que não se resume apenas à renúncia da palavra, mas igualmente à ausência de ruído. Calar-se não só para se ouvir a si próprio e ao(s) outro(s), mas também silêncio para ouvir a voz do Todo. O silêncio é o momento em que Deus se reconhece em cada um de nós (BOYER, 2017). O(u)rar e O(b)rar, enquanto exercícios diários de aperfeiçoamento assentes na sabedoria milenar do silêncio. Se necessário for, retirando-se na qualidade de silenciário, através da experienciação temporária de “voto de silêncio”, para mergulhar nas profundezas do mysterium tremendum et fascinanspara ouvir a Voz do Silêncio.
O filme Silence (Silêncio), do realizador Martin Scorsese, que estreou em Portugal no dia 19 de Janeiro de 2017, aborda precisamente a (re)ligação a Deus, ou a ausência desta, justamente no contexto do “vazio”: «– Rezo, mas estou perdido. – Estarei apenas a rezar ao Silêncio?». A resposta assenta na Esperança e, invariavelmente, no exercício do mister e na oração com base no silêncio: Ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies (Ora, lê, lê, lê, relê, labora e encontrarás) – máxima do Mutus Liber (o Livro Mudo da Alquímia). O silêncio sagrado é o silêncio que permite fazer passar, sem perturbações, a mensagem essencial (AUGUSTO, 2014: 60). Faça-se, pois, silêncio!
Silêncio, que se vai cantar o fado


Nicholas Roerich © Turquestão - Silêncio da Montanha (1937)

A chuva parou tão de repente como tinha começado. De novo a pradaria se tingiu de um branco pálido e os pássaros voltaram a cantar, como se tivessem despertado do sono naquele momento. Pesadas gotas continuavam a cair das folhas das árvores. Enxuguei a água que me banhava os olhos e aproximei-me do casebre. Apenas atravessei a porta, senti um cheiro pestilencial e vi uma nuvem de moscas à entrada, fervilhando em torno de um excremento humano.
Concluí imediatamente que alguém havia estado ali há pouco, talvez a descansar, para prosseguir depois a caminhada. Sinceramente, irritou-me que esse alguém fosse tão ordinário ao ponto de utilizar aquele único refúgio para semelhante efeito. A situação, todavia, tinha o seu quê de caricato, e desatei a rir. E menos apreensivo fiquei a respeito de um tal desconhecido.
Penetrando melhor no casebre, notei que havia lume debaixo das cinzas. Aproveitei o calor para secar as roupas encharcadas. Mesmo demorando algum tempo, conjecturei que não teria dificuldade de alcançar o homem que me tinha precedido, pois era evidente que não caminhava apressado.
Saí da arribana. A planície e o arvoredo que me tinha abrigado estavam banhados por uma luz dourada, e a folhagem, agora seca, rumorejava suavemente ao entrechocar-se, como que batida por uma chuva de areia.
Peguei num ramo seco que me servisse de bordão e prossegui a caminhada. Andando, atingi finalmente a ladeira de onde podia ver ao fundo a linha da costa.
(…) Violentas emoções me encheram o peito quando, encharcado pela chuva e apoiado ao bordão, corri pela encosta abaixo, escorregando aqui e além, (…) [ENDO, 2010: 111-113]

De noite, sentado na cama, com o arrulhar de uma rola no arvoredo a cortar o silêncio profundo, sentia o rosto de Cristo olhá-lo fixamente. Os olhos azuis transpirando piedade, os lineamentos serenos, compunham um rosto que lhe inspirava confiança. «Senhor, nunca nos deixarás sós», murmurava ele, olhando intensamente para esse rosto. E imaginava a resposta: «Não, não vos abandonarei jamais.» Estendendo a cabeça, apurava o ouvido para melhor escutar essa voz, mas a única coisa que ouvia era o arrulhar da rola. A escuridão era densa, profunda. [ENDO, 2010: 156]

O padre permanecia sentado, as costas arqueadas batidas pelo clarão prateado do luar que lhe entrava pelas grades. A parede reflectia-lhe os ombros descarnados. De vez em quando, sobressaltava-se. Era quando lhe chegava aos ouvidos o súbito restolhar de algum insecto na folhagem do bosque.
Fechando os olhos, todo ele se diluiu na densa escuridão envolvente. Nessa noite, em que todos os que conhecia já dormiam profundamente um outro sono, trespassava-lhe o coração a lembrança de uma outra noite. Prostrado no chão moreno de um Jardim que absorvera todo o calor do dia, só, apartado dos discípulos que dormiam chumbados à terra, um homem tinha dito: «A minha alma está triste até à morte.» E o suor desse homem escorria-lhe pela fronte em gotas de sangue. Era esse o rosto que tinha agora diante dos olhos. Centenas de vezes lhe aparecera em sonhos, sofredor, coberto de suor, mas, inexplicavelmente, sempre fugidio, sempre perdido na lonjura. Só esta noite, e pela primeira vez, tinha podido concentrar o olhar nesse rosto emaciado e doloroso.
Teria também esse homem tremido de pavor aquela noite perante o silêncio de Deus? Aterrava-o admitir semelhante coisa. [ENDO, 2010: 195]

Nicholas Roerich © Cristo no Deserto (1933)

De novo, ouviu o guarda ressonar. Desta vez, era tal qual o rumorejo de um moinho de vento. O padre sentou-se no chão encharcado de urina e riu como um idiota. Que bruto devia ser o tipo! Sem ter por que temer a morte, ressonava estupidamente, percorrendo todas as gamas do registo sonoro. Dormia como um cevado, fragorosamente, a boca escancarada. Parecia-lhe ver com os próprios olhos a cara do guarda: um carão gordanchudo, como um odre de saqué… A personificação, em suma, do homem enfartado. E todavia, para as suas vítimas potenciais, esse rosto havia de ser tremendamente cruel. Não, decerto, uma crueldade requintada, aristocrática, mas boçal como a de um labrosta tratando reses ou criaturas a ele inferiores. Tipos desses vira-os ele por terras de Portugal e conhecia-os bem. Também agora este indivíduo não fazia a mínima ideia do sofrimento que podia causar aos demais com a sua grosseria. Também a um outro homem, cujo rosto era o mais belo no sonho dos homens, outros homens, a este semelhantes, lhe haviam dado a morte.
Tornava-se-lhe irritante um ruído tão grosseiro. E logo numa noite daquelas, a mais cruel da sua vida! Parecia-lhe mesmo que escarneciam dele. Quando o ultraje cessou, bateu forte na parede, com o punho. Mas os guardas não se levantaram… tal como os discípulos no horto de Getsémani, profundamente adormecidos, em absoluto indiferentes ao tormento do mestre. E de novo bateu com força na parede da cela.
– Que é padre, que é? – Era o intérprete: o gato a moer a presa… – Está assustado, é isso? Era bem melhor que o senhor fosse menos teimoso. Diga uma só palavra, homem! Diga que abjura e tudo fica arrumado. Desafogue essa tensão acumulada e será outro!
– Era só para dizer que não suporto por mais tempo esse tipo que está para aí a ressonar – respondeu o padre, no escuro.
Caiu das nuvens o intérprete, verdadeiramente siderado…
– A ressonar? Essa é boa!... O senhor ouviu daí, Sawano?...
O padre não sabia que Ferreira estava perto do intérprete.
– Sawano, diga-lhe o que é… Explique-lhe…
A voz que, anos atrás, ouvia diariamente soou aos ouvidos do padre débil e triste:
– Ninguém ressona aqui. É o estertor dos cristãos pendurados na fossa!... [ENDO, 2010: 229-230]

Quando o padre assentou o pé no fumie nascia a manhã. Ao longe, um galo cantou. [ENDO, 2010: 237]

Nicholas Roerich © Manhã - Silêncio Violeta (?)



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
· AUGUSTO, Carlos Alberto. Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2014, pp. 96.
· BLAVATSKY, Helena (1899). A Voz do Silêncio. São Paulo: Editora Ground, 2002, pp. 112. ISBN 85-7187-094-2
· BOYER, Remi. Palestra, no âmbito do relançamento do livro A Tradição Maçónica e o Despertar da Consciência (editora Zéfiro), proferida no dia 24 de Abril de 2017, na sede da AMORC em Lisboa
· CISNEROS, García Jiménez de (1500): Book of Exercises for the Spiritual Life. Montserrat: Monastery of Montserrat, 1929, pp. 338.
· ENDO, Shusaku. Silêncio. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010, 2ª ed., pp. 272. ISBN 978-972-20-4135-5
· PECK, Scott (1985). Gente da Mentira – A Esperança para Curar a Maldade Humana. Cascais: Sinais de Fogo, 2001, pp. 360. ISBN 972-8541-276-9
· SMEDT, Marc de. Elogio do Silêncio. Cascais: Sinais de Fogo, 2001, pp. 216. ISBN 972-8541-25-2
· VASTO, Lanza del. Não-violência e Civilização. Lisboa, 1978.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

D'a Marcha

A fechar o mês de Santiago e a coincidir com o começo da peregrinação que empreendemos no ano transacto, publicamos um excerto da obra Imagens e Reflexos do Imaginário Português, da autoria de Gilbert Durand e prefácio do insigne Mestre Lima de Freitas. Na sequência de mais de um milénio de tradição cavaleiresca, num blogue assumidamente de “Caminheiros Andantes” (ou de “cavaleiros apeados”, como se queira), mais do que (re)lembrar pretendemos (ou gostaríamos) que este texto suscite (ou suscitasse) a necessária e devida curiosidade por antigas “coisas” (!) afinal tão presentes.

Mestre Lima de Freitas © Estudo para D. Sebastião (1987)

A PEREGRINAÇÃO
(...) “Cruzar-se” é partir para um combate santo, uma justa reconquista do túmulo de Cristo, e ao mesmo tempo fazer a famosa peregrinação à Terra Santa. Mas não é a Cruzada uma extrapolação da reconquista? Ora a reconquista em terra ibérica vai situar o centro da terceira prestigiosa peregrinação da cristandade no Oeste da Europa, na Galiza, centro que irá literalmente irrigar toda a Europa ocidental através das grandes vias de peregrinação que convergem para Santiago.
Não esqueçamos igualmente que o famoso Monte Saint Michel “no perigo do mar”, dedicado ao Arcanjo chefe das milícias celestes, era um dos grandes centros de peregrinação da França, também ele no Oeste da Europa e lugar onde a crença céltica situa a ilha de Avallon, no qual os mortos esperam a Ressurreição.
Mas o caso de São Tiago Maior e do seu túmulo em Compostela é paradigmático: por vezes o Santo é representado como “matamouros”, de espada em riste, a cavalo – muito próximo da figuração equestre do Imperador Constantino, tão célebre no Poitou e em Saintonge no séc. XII (São Nicolau de Civray, Parthenay le Vieux, Saint Jovin de Marne, Aulnay, Sainte Croix de Bordéus, etc..) – outras vezes, sobretudo a partir do séc. XIII, como peregrino a pé, coberto pelo grande “sombrero” ornado com a concha, apoiado no bordão, da cabaça e alforge, abrigando porventura alguns peregrinos debaixo da sua capa (como no baixo-relevo do séc. XVII do Museu de Bona). Ao considerarmos a lista das obras de arte consagradas a São Tiago Peregrino verificamos que se trata, as mais das vezes, de estátuas anónimas e populares, e menos de obras de grandes pintores (à parte o Guido Reni do Prado e o Rembrandt da colecção Stephen C. Clark de Nova Iorque). O Peregrino aparece de algum modo como a face plebeia do Cavaleiro. Donde a extrema difusão do culto e das múltiplas relíquias do Santo Peregrino: Paris possuía três igrejas consagradas a São Tiago, e em toda a Europa se manifestava o seu culto: nos Países Baixos, na Alemanha, na Inglaterra, em Portugal – onde é o patrono de Coimbra – em Roma, Veneza, Milão, etc.. O culto deste santo foi sempre crescendo do século XII até ao século XIV, depois declina no séc. XVI quando a voga das peregrinações e o espírito das cruzadas desaparecem.
Mas há algo ainda mais interessante: a captação pela Cavalaria, na rota francesa da peregrinação, de uma santa padroeira numa das últimas etapas antes da travessia dos Pirinéus. Tal foi o destino de Sainte Foy de Conques, na Rouergue, a princípio insignificante. Nada parecia predestinar (mas veremos já que só na aparência, e não certamente nas razões profundas) nessa menina mártir de Agen uma das Santas Padroeiras da Cavalaria! Como o diz, com graça, Louis Réau, “o maior milagre de Sainte Foy é seguramente a prodigiosa extensão do culto prestado na Idade Média a uma pequena santa local e sem realidade histórica (sic)…”. Cruzados e peregrinos propõem o culto da menina ao longo de todo o “Camino francès”: em Roncevaux, na própria cidade de Compostela, na Normandia (em Conques), em Libourne, nos Baixos Pirinéus, na Haute Garonne, no Lyonnais, na Tarentaise, na Brie, na Beauce, em Londres, em Liège, na Itália, na Espanha e até – mais tarde – em Bogotá… Notemos de passagem que esta santa padroeira dos Cruzados é igualmente, e curiosamente, padroeira das parturientes, tal como São Leonardo de Noblac, no Limousin. Reza-se tanto à santa como ao santo para pedir o “livramento” dos cruzados cativos, cujas cadeias e correntes adornam, em ex-votos, os seus santuários. Veremos a seguir a importância deste culto do “cinto de Sainte Foy”.

Tentemos compreender, se não explicar, o destino retumbante e o sucesso da donzela de Rouergue. Antes de mais nada, evidentemente, há o nome: a Idade Média é sôfrega de homónimias e de trocadilhos: em Conches (séc. XVI) a pequena santa, confundida com uma certa Santa Foi de Roma, tem por mãe Santa Sofia… Mas este jogo de palavras não basta para explicar a extraordinária difusão e sobretudo a introdução da jovem mártir na mesnada santa dos Cavaleiros. A protecção das parturientes pela própria padroeira das Cruzadas e o culto do “cinto” põem-nos numa pista de interpretação mais interessante: encontrámos já o culto do “cinto” e as mesmas atribuições maiêuticas em Santa Margarida de Antioquia, matadora de sáurios ligada a S. Jorge, o Grande Patrono da Cavalaria. Amplifiquemos a comparação: Santa Margarida é uma “princesa” e portanto tem a cabeça cingida por uma coroa, de pérolas bem entendido (margarida = pérola) – sublinharemos adiante a importância deste pormenor – pérolas “marinhas” que a confundem com Santa Pelágia de Antioquia (pelagia = mar) e com Santa “Marinha” de Orense, em Espanha. O que há de notável, porém, é que a pequena Santa de Rouergue é, também ela, incompreensivelmente coroada, como se vê no celebérrimo relicário de Conques (séc. X), no vitral da catedral de Chartres (séc. XIII) – onde uma pomba desce do céu com uma coroa cravejada de pedras preciosas a fim de coroar a pequena mártir –, ou na estatueta de Pierre Fréchieu (séc. XV) do Tesouro de Conques… Santa Foy, como Santa Margarida, foram convertidas pelas respectivas amas de leite; ambas foram desejadas por “pagãos”, uma por Blibrius, outra pelo procônsul Daciano; ambas sofreram um rôr de suplícios: atenazadas, queimadas e por fim decapitadas.

Mas, sobretudo, ambas são invocadas – donde a devoção pelos seus “cintos” – para alívio pronto das parturientes. A “contaminação” hagiográfica não deixa dúvidas, quanto a nós: quer uma, quer outra são “princesas”, ambas virgens e ambas “atenazadas” nos seios, ambas santas protectoras do parto… Talvez não seja indiferente lembrar aqui a filiação “sofiânica” da santinha de Rouergue. Por detrás da carga de superstições populares desenha-se uma interpretação, que começa a dar justificação ao facto das duas virgens mártires estarem ligadas à mesnada da santa cavalaria. (…)
A confusão entre a cavalgada errante do cavaleiro e a peregrinação é, pois, extremamente instrutiva: mostra-nos que o carácter errante dos Cavaleiros – de Gauvin a Perceval nas duas “Continuações” do Conto do Graal – é apenas aparente. Na verdade essa “errância” tem a ver com a demanda alquímica, como mostrou P. G. Sansonetti, quer mais simplesmente com uma “peregrinação” iniciática ou, pelo menos, “iluminativa”. Como já o provou Georges Suby, bem cedo, a partir do Pontifical romano-germanique de Mayence, do século X, a cavalaria tornou-se uma ordo, foi “ordenada”. Essa ordem não parou de crescer ao longo dos séculos XI e XII, reforçada pela confluência do sacral e do militar nas grandes ordens religiosas e guerreiras. Não espanta, por isso mesmo, ver confundidas na crença popular a via espiritual do peregrino e a demanda do cavaleiro. Ambas constituem uma “marcha” – à margem tanto do confortável clericato como da sedentarização urbana da burguesia nascente – unidas numa “demanda” cujo tipo perfeito é a demanda do Graal. O carácter “errante” da cavalaria que D. Quixote, o derradeiro cavaleiro, retomará com desesperada magnificência, é de natureza igual à da peregrinação espiritual. (…) [DURAND, 2000: 113-116]

Armando Romanelli de Cerqueira © Don Quixote (1974)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
DURAND, Gilbert. Imagens e Reflexos do Imaginário Português. Lisboa: Hugin Editores, 2000, pp. 224. ISBN 972-8310-23-4