sexta-feira, 29 de julho de 2016

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Hoje é dia de Santiago

Hoje é dia de Santiago, vamos comemorar essa Via Láctea que conduz ao LUG-ar de Campus Stellae



Oito séculos após a vida terrena de Tiago, filho de Zebedeu, surgiu na Galiza uma prodigiosa lenda, na sequência de inusitados e seráficos fenómenos descritos por um eremita cristão. Fenómenos que culminaram na identificação dos restos mortais desse apóstolo no local que é hoje Santiago de Compostela! O apóstolo Tiago Maior terá sido decapitado na remota Palestina durante o reinado de Tibério, por ordem de Herodes Agripa, contudo o seu corpo foi pretensamente conduzido num barco à deriva (à semelhança do mito de S. Vicente), tendo dado à costa na Galiza, mais precisamente em Iria Flávia (a actual Padrón), e daí transportado até Compostela. Nesse contexto, não será de estranhar a frase de Miguel Unamuno: «Qualquer homem, dotado de espírito crítico, não pode admitir, por católico que seja, que o corpo de Santiago Maior repouse em Compostela.» No entanto, para o que nos move, pouco importa de quem são os restos mortais que se cultuam em Compostela. O que nos interessa é o Mistério (a “coisa mística”) que atraiu e continua a atrair larguíssimos milhares de peregrinos, desde remotos tempos, nesse(s) périplo(s) em torno de uma geografia sagrada, terrestre e celeste, com “término” na galaica finis terrae.


«Fazer hoje o Caminho de Santiago – El Camiño – não comporta os perigos de outrora mas continua a ser certamente uma aventura pessoal tão marcante quanto inolvidável. E, claro, ainda hoje o caminho é utilizado por diversas escolas mistéricas e ordens místicas como forma de iniciação ou exercício de fé.» (p. 33)
«A todos, boas caminhadas!» (p. 21)
Pedro Cuiça
Em terras de S. Miguel (Queijas),
no mês de Santiago (25 de Julho de 2014)
[Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera do Livro, 2015 ]

sábado, 23 de julho de 2016

Mobilidade sustentável


A caminhada, a mais antiga forma de exercício, deve regressar ao dia-a-dia da vivência pós-moderna. Nos tempos pré-industriais, as pessoas viajavam sobretudo a pé e isso mantinha-as em forma. Depois veio a vulgarização do motor e as pessoas tornaram-se preguiçosas e, muitas delas, com excesso de peso ou obesas. Andar a pé tornou-se no transporte de último recurso; segundo a Organização Mundial de Saúde, uma «arte esquecida» nos dias de hoje (HONORÉ, 2006: 125). Muitas das deslocações que são efectuadas de carro (ou outros veículos motorizados e poluentes) poderiam facilmente ser feitas a pé mas não o são! E, contudo, há imensas razões para caminhar…
A primeira, desde logo, é que se trata de algo inteiramente natural e, por isso, saudável: a locomoção bípede é uma forma de rewilding (MONBIOT, 2014), que nos faz regressar às nossas origens enquanto espécie, e um movimento slow (HONORÉ, 2006), que nos permite retomar ritmos retemperadores do nosso bem-estar. Caminhar aumenta a forma física, o bem-estar psicológico, reforça as defesas contra diversas doenças e cura outras tantas1. A segunda é que se trata de uma actividade não poluente e que, ao preterir o uso de veículos motorizados, pode e deve constar entre as «medidas urgentes contra o aquecimento global» (Agenda 2030). A terceira é que se trata de uma actividade gratuita: não é preciso pagar a um personal trainer ou possuir qualquer bem material para andar na cidade ou no campo sendo, portanto, uma prática que põe em pé de igualdade ricos e pobres. Pelos motivos elencados, entre muitos outros que ficam por referir, torna-se evidente a importância de andar…
Nos tempos que correm é fundamental adoptar novas atitudes e formas de promover meios de mobilidade sustentáveis, como o andar a pé mas também o andar de bicicleta. E, nesse contexto, os percursos urbanos têm vindo a suscitar um notório interesse, não só os percursos pedonais como os percursos cicláveis2. A lógica de funcionamento e de funcionalidades das cidades deve ser alterada para uma eco-lógica que integre transportes públicos, ecopistas e outras medidas que contribuam para uma eficaz “acessibilidade sustentável”… Portugal, principalmente nas grandes e médias cidades, confronta-se com importantes problemas de tráfego rodoviário provocado pela utilização excessiva do transporte individual. A utilização do automóvel está associada a poluição, ruído, acidentes rodoviários, perda de tempo em viagem (devido a congestionamentos), entre outros problemas. Na Europa, o sector dos transportes, tem vindo a aumentar a emissão de gases com efeito de estufa, desde 1990, sendo o sector com pior desempenho relativamente aos objetivos do Protocolo de Quioto. Por estas e por outras razões, torna-se premente travar e inverter a preponderância da utilização de automóveis como forma hegemónica de deslocação/transporte.
A prática quotidiana de caminhada e/ou a utilização de bicicleta deve(m) ser enquadrada(s), nos dias de hoje, numa consciência ecológica que extravase o antropocentrismo (microcosmo da esfera meramente humana) e adopte uma visão ecocêntrica ou, melhor, ecosófica (que tenha em conta o macrocosmo a nível planetário). “Pensar global e agir local”, andar a pé e/ou de bicicleta para estar conectado com o todo: mover-se pela sua saúde e pela saúde do planeta.
adapt. CUIÇA, Pedro & PASCOAL, Filipa (Jul. 2016): Projecto de Educação para o Desenvolvimento Sustentável com base numa Mobilidade Sustentável



Notas
1- A prática de caminhada tem vindo a ser incrementada por via da promoção de estilos de vida saudáveis e activos, designadamente através dos médicos de família, particularmente em segmentos populacionais com um acentuado risco de inactividade (e.g. idosos). E, nesse pressuposto, será importante salientar a mensagem veiculada por muitos médicos de família no que concerne à saúde dos seus pacientes: “Ande pelo menos 30 minutos por dia” (CUIÇA, 2015: 41).
Andar a pé comporta notórias implicações nos domínios da saúde e do bem-estar dos praticantes, tal como no meio ambiente; constitui um exercício físico de excelência (sem dúvida, dos melhores), ao alcance de qualquer um. Mais, caminhar é um exercício suave, ideal para todas as faixas etárias e com múltiplos e reconhecidos benefícios para a saúde. Andar a pé contribui para melhorar o tónus muscular, aumentando o desempenho cardiovascular e melhorando ou resolvendo eventuais dificuldades respiratórias; favorece a coordenação de movimentos e, inclusivamente, a prontidão de reflexos, corrige posturas erradas e pode evitar que surjam “dores nas costas” (ibidem).
A marcha, se possível acelerada – e nesse particular destaca-se a marcha nórdica (nordic walking) pelos benefícios acrescidos –, constitui um bom auxiliar para a perda de peso, para mais se acompanhada de uma dieta adequada (ibidem). A prática de pedestrianismo é uma actividade física aeróbica excelente para combater o excesso de peso ou a obesidade e, simultaneamente, para a prevenção da diabetes, a prevenção e o tratamento da hipertensão arterial e a redução dos níveis de colesterol. A marcha ajuda a prevenir e a tratar a osteoporose, constitui um precioso auxiliar no tratamento da artrite reumatóide e ajuda inclusivamente a prevenir o aparecimento de determinados tipos de cancro como, por exemplo, o cancro da mama, do cólon, do útero, dos ovários e da próstata (ibidem). Mas os benefícios referidos não se restringem apenas aos aspectos físicos, andar a pé surge como uma praxis privilegiada de contacto com o meio envolvente e de partilha de experiências com consequências inegáveis no âmbito do bem-estar psicológico. Neste contexto, a caminhada também favorece a prevenção da depressão (melhorando a disposição) e promove a redução do stress e simultaneamente da glicemia, visto as hormonas do stress serem hiperglicemiantes.
2- Os indivíduos sedentários tendem a estar dependentes da existência de infraestruturas específicas para a prática desportiva e, nesse contexto, os percursos pedestres balizados surgem como promotores da prática de exercício físico, mormente quando se localizam na proximidade das suas áreas residenciais e em ambientes seguros. No entanto, será de destacar que a promoção da caminhada, no âmbito da saúde, tem gerado grupos informais de caminhantes que diariamente se encontram para andar nas imediações da sua área residencial e na via pública, sem quaisquer infraestruturas específicas para o efeito (CUIÇA, 2015: 42). Na verdade, a prática de marcha não exige qualquer tipo de “pista” instalada para o efeito ou deslocar-se através de veículo até um determinado local, mais ou menos distante. Basta sair de casa e andar, tão simples quanto isso!
No entanto, a rede viária urbana foca-se predominantemente nos automóveis, deixando os ciclistas para segundo plano. Tanto os passeios para caminhar, como as pistas para bicicletas são deixadas para segundo plano no momento do planeamento dos transportes e acessibilidades, de forma a não causarem incómodos na circulação de automóveis. Esta tendência tem de ser alterada e as ciclovias e percursos pedestres devem ser reavaliados a nível local. Também deverá ser dada uma particular atenção à manutenção dos percursos em mau estado. Além disso, deve ser feita uma adaptação das zonas de circulação onde não existam


Recursos Bibliográficos
· Década das Nações Unidas para o desenvolvimento Sustentável 2005-2014 – Documento Final Plano Internacional de Implementação. Disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001399/139937por.pdf, 2005. [Consult. 9 Mai. 2016]
· Our Common Future – Report of the World Commission on Environment and DevelopmentDisponível em http://conspect.nl/pdf/Our_Common_Future-Brundtland_Report_1987.pdf, 1987. [Consult. 9 Mai. 2016]
· Transforming our World: The 2030 Agenda for Sustainable DevelopmentDisponível em https://docs.google.com/gview?url=http://sustainabledevelopment.un.org/content/documents/21252030%20Agenda%20for%20Sustainable%20Development%20web.pdf&embedded=true. [Consult. 6 Mai. 2016]
· CUIÇA, Pedro (2015): Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 312. ISBN978-989-626-721-6
· HONORÉ, Carl (2006). O Movimento Slow. Cruz Quebrada: Estrela Polar, pp. 264. ISBN 972-8929-30-7
· MONBIOT, George (2014). Feral – Rewilding the Land, Sea and Human LifeLondon: Penguin Books, pp. 324. ISBN 978-0-141-97558-0

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A Fronteira Invisível

A Fronteira Invisível, de Kilian Jornet, acaba de ser lançado em Portugal pela editora Lua de Papel. À semelhança de Correr ou Morrer, o primeiro livro desse autor, também tive a grata oportunidade de fazer a revisão técnica deste novo título. Segundo esse extraordinário corredor de montanha, este é um livro: «Para os mestres. Para os que não têm medo de fracassar, de procurar, de se perder, de sonhar, de abandonar o conforto, de ser eles próprios, de procurar. Para os que não têm medo de viver.» Este é certamente um livro a não perder.


Passo a Passo em Faro


Na próxima sexta-feira (dia 29 de Julho) realiza-se uma sessão de autógrafos do Passo a Passo  Manual de Caminhada e Trekking, no âmbito da 40ª Feira do Livro de Faro. Apareçam.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Back to Walk...

...to Lisbon Walk ;-)

Ó Lisa Gibbons (I Heard Your Call Before I Was Born, 2014)

O Wanderer!

Como o Wanderer (o caminhante) do romantismo germânico, que caminha não por desejo de alcançar determinado lugar mas sim por gosto de andar, experimentando novos e múltiplos caminhos possíveis, também Agostinho da Silva amava a reflexão autónoma, a meditação desprendida, o pensamento que se edifica ao sabor das ondas internas, com o mínimo de constrangimentos externos, de preconceitos, de supostos, de planificação. É um deixar-se ir na livre aventura da lide intelectual avançando de acordo com a própria dinâmica endógena do pensamento.

João Maria de Freitas Branco in Agostinho da Silva Um Perfil Filosófico – Do Sergismo ao pensamento à solta (Zéfiro, 2006: 69-70)


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Abrir caminho

...pois sempre se atrasa quem não tem por escopo abrir caminho.
Agostinho da Silva in Educação em Portugal (Lisboa: Ulmeiro, 1989: 7)

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Religar


As peregrinações a pé rumo a determinados locais «santos» constituem uma prática milenar largamente exercitada e ainda hoje muito em voga, por isso quando se fala de religião no âmbito do pedestrianismo será essa a temática sobre a qual a maior parte das pessoas pensará de imediato. No entanto, ao entendermos «religião» na sua acepção etimológica de ligação (do latim religāre: ligar a, unir a, atar) o que nos ocorre é o acto de andar como actividade privilegiada de (re)ligação à sacralidade da natureza ou à própria divindade. É nessa acepção, aliás, que o caminhar visto como uma espécie de «ioga ambulatório» dá sentido a essa curiosa expressão, tendo em conta também a etimologia da palavra «ioga» (do sânscrito  योग: unir ou juntar, entre outros significados).

Pedro CUIÇA (2015): Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking; Lisboa: A Esfera dos Livros, p. 31.