quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Cantar a terra

[ABRAM, 2007: 175]

O que aconteceu em tempos volta a acontecer muitas outras vezes. O sonho, a vida da imaginação da própria terra, deve ser continuamente renovado, e um homem aborígene, quando caminha ao longo do trilho do Sonho do seu Antepassado, cantando a região para trazê-la à visibilidade, converte-se virtualmente no Antepassado viajante e, assim, a terra com história nasce de novo.
Esta identificação, este sangrar do Tempo dos Sonhos para o aqui e agora, acontece não apenas na Deambulação solitária, mas também, e em especial, durante os rituais colectivos efectuados em sítios especiais do Sonho, rituais em que os encontros e aventuras dos Antepassados nesses locais não só são cantados, mas também postos em cena pelos anciãos.
[ABRAM, 2007: 174]

Ray Partridge "Uluru - Ceremonial Treks"
Pedro Cuiça © Messner Mountain Museum Firmian (Tirol do Sul, 14/ Out. 2016)


Referência bibliográfica
ABRAM, David. A Magia do Sensível – Percepção e Linguagem num mundo mais do que humano. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, pp. 340. ISBN 978-972-31-1184-2

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Cavaleiros a pé

Renoir © Trilho na Floresta (1875)

Caminhávamos, juntos e separados, entre os desvios bruscos da floresta. Nossos passos, que era o alheio de nós, iam unidos, porque uníssonos, na macieza estalante das folhas, que juncavam, amarelas e meio-verdes, a irregularidade do chão. Mas iam também disjuntos porque éramos dois pensamentos, nem havia entre nós de comum senão que o que éramos pisava uníssono o mesmo solo ouvido.

Tinha entrado já o princípio do outono, e, além das folhas que pisávamos, ouvíamos cair continuamente, no acompanhamento brusco do vento, outras folhas, ou sons de folhas, por toda a parte onde íamos ou havíamos ido. Não havia mais paisagem senão a floresta que velava todas. Bastava, porém, como sítio e lugar para os que, como nós, não tínhamos por vida senão o caminhar uníssono e diverso sobre um solo mortiço. Era – creio – o fim de um dia, ou de qualquer dia, ou porventura de todos os dias, num outono todos os outonos, na floresta simbólica e verdadeira.

Que casas, que deveres, que amores havíamos largado – nós mesmos o não saberíamos dizer. Não éramos, nesse momento, mais que caminhantes entre o que esquecêramos e o que não sabíamos, cavaleiros a pé do ideal abandonado. Mas nisso, como no som constante das folhas pisadas, e no som sempre brusco do vento incerto, estava a razão de ser da nossa ida, ou da nossa vinda, pois não sabendo o caminho ou porque o caminho, não sabíamos se partíamos ou chegávamos. E sempre, em torno nosso, sem lugar sabido ou queda vista, o som das folhas que escombravam adormeciam de tristeza a floresta.

Nenhum de nós queria saber do outro, porém nenhum de nós sem ele prosseguiria. A companhia que nos fazíamos era uma espécie de sono que cada um de nós tinha. O som dos passos uníssonos ajudava cada um a pensar sem o outro, e os próprios passos solitários tê-lo-iam despertado. A floresta era toda clareiras falsas, como se fosse falsa, ou estivesse acabando, mas nem acabava a falsidade, nem acabava a floresta. Nossos passos uníssonos seguiam constantes, e em torno do que ouvíamos das folhas pisadas ia um som vago de folhas caindo, na floresta tornada tudo, na floresta igual ao universo.

Quem éramos? Seríamos dois ou duas formas de um? Não sabíamos nem o perguntávamos. Um sol vago devia existir, pois na floresta não era noite. Um fim vago devia existir, pois caminhávamos. Um mundo qualquer devia existir, pois existia uma floresta. Nós, porém, éramos alheios ao que fosse ou pudesse ser, caminheiros uníssonos e intermináveis sobre folhas mortas, ouvidores anónimos e impossíveis de folhas caindo. Nada mais. Um sussurro, ora brusco ora suave, do vento incógnito, um murmúrio, ora alto ora baixo, das folhas presas, um resquício, uma dúvida, um propósito que findara, uma ilusão que nem fora – a floresta, os dois caminheiros, e eu, eu, que não sei qual deles era, ou se era ou dois, ou nenhum, e assisti, sem ver o fim, à tragédia de não haver nunca mais do que o outono e a floresta, e o vento sempre brusco e incerto, e as folhas sempre caídas ou caindo. E sempre, como se por certo houvesse fora um sol e um dia, via-se claramente, para fim nenhum, no silêncio rumoroso da floresta.
28/11/1932
[PESSOA, 1986: 160-161]

Pedro Cuiça © Mont'santo (Lisboa, 4/12/2016)

Referência bibliográfica
PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego, por Bernardo Soares - 1ª Parte. Mem Martins: Publicações Europa-América, 1986, p.318

Pedro Cuiça © Mont'santo (Lisboa, 4/12/2016)

O caminho...

Lima de Freitas © Pessoa e "O caminho da serpente" (1995)

O caminho da Serpente está fora das ordens e das iniciações, está, até, fora das leis (rectilíneas) dos mundos e de Deus.
Fernando Pessoa

Lima de Freitas © Pessoa e "O caminho da serpente" (1995)

domingo, 4 de dezembro de 2016

A estética

A estética do ritmo... «the rhythmical creation of beauty» (Edgar Allan Poe).



video
Pedro Cuiça © Pico (Açores, Jan./2016)


(…) encontrar-se, no meio da finitude, em unidade com o infinito e ser eterno em cada instante.
Friedrich Schleiermacher

Fantasia criadora que simultaneamente nos dá o tempo e a eternidade, esta nos transmitindo pelos meios especiais e temporais do «continuum» físico e dela olhando, sem para trás ou para diante, o próprio fenómeno da criação. Aqui teria fundamentalmente sua raiz de ser a Liturgia, em todos os seus aspectos; e aqui se prenderia a base, igualmente litúrgica e levítica, de todo o verdadeiro artista.
Agostinho da Silva in As Aproximações (Relógio d'Água,1990: 41)

O ritmo

A fechar a trilogia da (minha!) geografia do sagrado: Arrábida (antes de ontem), Sintra (ontem) e Mont'santo (hoje)...

Pedro Cuiça © Mont'santo (Lisboa, 4/12/2016)

Pedro Cuiça © Mont'santo (Lisboa, 4/12/2016)

Na Caminhada Chi Kung (Chi Kung Walking) costumamos explorar a (re)ligação à Natureza – ao meio envolvente e ao si – com base em elevados níveis de atenção à visão, ao tacto, à audição, ao olfacto e, quando possível, ao paladar. A tentativa de atenção plena a cada um dos sentidos é feita com base numa caminhada lenta e de cadência constante. De certo modo trata-se de uma iniciação à «ciência do concreto», sem sugestões ou persuasões, assente na tentativa de vivência desperta dos sentidos. 
Hoje fizemos um up-grade da “coisa” ao explorar, desde logo, a vivência intensificada e simultânea de vários sentidos (com especial incidência na visão, audição e olfacto), juntamente com a implementação de diversificados ritmos, desde o estar parado, a cadências lentas e acelerações harmoniosas. A fenomenologia do ritmo faz parte da vivência do corpo, do meio envolvente, do todo: a marcha, a respiração, os batimentos cardíacos, as oscilações da vegetação ou a chuva que marcou todo o percurso.

Pedro Cuiça © Mont'santo (Lisboa, 4/12/2016)

Pedro Cuiça © Mont'santo (Lisboa, 4/12/2016)


«Il n’y a pas de movement sans rythme.»

«There is no movement without rhythm.»


sábado, 3 de dezembro de 2016

Éden à chuva

(...) he difficil encontrar em outra qualquer parte tão variada belleza, tão lindos horisontes, e viçosos arvoredos, como se encontrarão no limitado espaço desta serra; a mesma asperesa dos penedos contrastando com a amenidade dos bosques he talvez hum dos seus mais bellos ornatos.
(...)
Tão variados os passeios, que sempre he novo aquelle que escolhemos; objecto de meditação para o sabio, este solta as redeas á sua imaginação, e ás suas sublimes cogitações; o amante encontra ahi hum novo Eden, o infeliz huma solidão amiga a quem confie as suas maguas, o poeta busca novas inspirações, reflectindo-se-lhe na mente alheada a scena multi-color, leda e deleitosa, em que pascêm huns olhos avidos .

Visconde de Juromenha in Cintra Pinturesca ou Memória Descritiva da Vila de Sintra, Colares e seus Arredores (1838, pgs. 22-23)


Pedro Cuiça © Convento de Santa Cruz dos Capuchos (Serra de Sintra, 3/12/2016)

Lisbon Walk

Não deve ser aqui! Hoje andámos pouco por estas bandas, porque fomos caminhar na Serra da Lua...

Pedro Cuiça © Rua do Alecrim (Lisboa, 3/12/2016)

Cantares



Todo pasa y todo queda,

pero lo nuestro es pasar,

pasar haciendo caminos,

caminos sobre el mar.
Nunca persequí la gloria,

ni dejar en la memoria

de los hombres mi canción;

yo amo los mundos sutiles,

ingrávidos y gentiles,

como pompas de jabón.
Me gusta verlos pintarse

de sol y grana, volar

bajo el cielo azul, temblar

súbitamente y quebrarse…
Nunca perseguí la gloria.
Caminante, son tus huellas

el camino y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.
Al andar se hace camino

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino

sino estelas en la mar…
Hace algún tiempo en ese lugar

donde hoy los bosques se visten de espinos

se oyó la voz de un poeta gritar

Caminante no hay camino,

se hace camino al andar…
Golpe a golpe, verso a verso…
Murió el poeta lejos del hogar.

Le cubre el polvo de un país vecino.


Antonio Machado


Pedro Cuiça © Cabo Espichel (Cordilheira da Arrábida, 2/12/2016)

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Onde

Pedro Cuiça © Colegiata de Alquezar (Aragão - Espanha, 31/10/2016)

Frei Betto cunhou uma expressão de grande verdade: «A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam». Efectivamente, se alguém pisa sempre em palácios e em sumptuosas catedrais, acaba a pensar segundo a lógica dos palácios e das catedrais. 
[BOFF, 2014: 60]

Pedro Cuiça © Colegiata de Alquezar (Aragão - Espanha, 31/10/2016)


Referência bibliográfica
BOFF, Leonardo. Francisco de Assis e Francisco de Roma – Uma Nova Primavera na Igreja. Lisboa: Pergaminho, 2014. ISBN 978-989-627-219-9

terça-feira, 29 de novembro de 2016

...desORIENTação

Devastadora também para o psiquismo desorientado do «homem da rua», desarticulado e acossado por frustrações e «fantasmas» que os meios de comunicação de massas excitam e agravam e que a arte das «vanguardas» vem juncar com os estilhaços de uma cultura dinamitada, com os lixos e os restos heteróclitos de uma civilização do in-significante.
[FREITAS, 2006: 333]

Pedro Cuiça © Rosa dos Ventos (Funchal - Madeira, 2011)

Referência bibliográfica
FREITAS, Lima de. Porto do Graal – A riqueza ocultada da tradição mítico-espiritual portuguesa. Lisboa: Ésquilo, 2006, pp. 352. ISBN 972-8605-72-2

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Woodcraft

Pedro Cuiça © Grupo 48 AEP (Damaia, 2013)

Na sequência dos posts que publicámos anteriormente sobre The Kindred of the Kibbo Kift e John Hargrave, o seu fundador, deixamos aqui algumas referências histórico-bibliográficas acerca da evolução do woodcraft e, nesse contexto, um vídeo sobre a Woodcraft Folk, que ainda se encontra hoje no activo, com vista a contextualizar esse fenómeno que, actualmente, será remotamente associado àquilo que se considera esco(u)tismo.

Um famoso clássico sobre vida ao ar livre e técnicas de campo trata-se de Woodcraft and Camping (1884), um livro escrito por George Washington Sears (1821-1890), mais conhecido como "Nessmuk". Trata-se de uma obra que, apesar de ter mais de um século, se revela bastante actual e mostra o quanto Nessmuk estava "à frente"... A designação "Nessmuk" é bastante conhecida pelas características facas assim denominadas, mas o mesmo não acontece com os escritos do autor que deu a conhecer esse nome. Para além do referido livro, Nessmuk também escreveu diversos artigos para a revista Forest and Stream.


The American Boy’s Handybook of Camp-lore and Woodcraft (1920) trata-se de mais um clássico, desta feita de Dan Beard (1850-1941). Daniel Carter "Uncle Dan" Beard foi um ilustrador e escritor, fundador dos Sons of Daniel Boone (1905) que viriam a integrar os Boy Scouts of América (1910). Outro clássico de Dan Beard é Shelters, Shacks, and Shanties (1914).


Mais um clássico: The Book of Woodcraft and Indian Lore (1913), de Ernest Thompson Seton (1860-1946). Este escocês, naturalizado norte-americano, foi um notável escritor e artista dedicado à temática da vida selvagem. Foi também o inspirador do movimento escotista na Inglaterra e, posteriormente, do Kibbo Kift. Outra importante obra de Thompson Seton é Boy Scouts of America (1910). Um livro no qual esse profícuo escritor, com mais de meia centena de obras publicadas sobre “artes do campo”, cria os fundamentos do escotismo na América do Norte. Saliente-se que Baden-Powell foi coautor.


O escotismo surge, em 1907, como uma forma de woodcraft, pioneira na descoberta/exploração da natureza por parte de crianças e jovens num contexto de actividades de ar livre. O movimento, fundado por Baden-Powell (1857-1941), implantou-se com base no conhecidíssimo Scouting for Boys (1908), publicado em Portugal inicialmente sob o título de Manual do Escoteiro (1915) e posteriormente com o título Escutismo para Rapazes. Não deixa de ser curioso comparar o original com as traduções portuguesas



A Flor...



«Strong Legs, Good Health»

«Ao entendermos “religião” na sua acepção etimológica de ligação (do latim religāre: ligar a, unir a, atar) o que nos ocorre é o acto de andar como actividade privilegiada de (re)ligação à sacralidade da natureza ou à própria divindade. É nessa acepção, aliás, que o caminhar visto como uma espécie de “ioga ambulatório” dá sentido a essa curiosa expressão, tendo em conta também a etimologia da palavra “ioga” (do sânscrito योग: unir ou juntar, entre outros significados).»* Mas uma abordagem profana surge com igual validade como forma de atingir uma (re)ligação simultaneamente ao meio envolvente e ao si, afinal ao (macro e micro) cosmos, se esta constituir uma manifestação plena da «ciência do concreto»** que tão somente exige elevados níveis de atenção e a plena vivência dos sentidos. É neste contexto, sagrado e/ou profano, que a caminhada Chi Kung (Chi Kung Walking) surge como um modo privilegiado de (re)ligação ao todo, com notórios e notáveis benefícios para a saúde e bem-estar dos praticantes.
«Many people read, talk, or watch TV while exercising to make the time go by faster. However, to get the most healing benefits from walking, Traditional Chinese Medicine teaches us that the mind should be focused, thus walking becomes a Qi Gong exercise known as walking meditation. Walking meditation is a simple yet profound healing experience; no distractions, just awareness. It’s not about talking or socializing or thinking while you’re walking; your mind is peacefully presente and relaxed.»***

*Pedro Cuiça: Passo a Passo – Manual de Caminhada e Trekking; Lisboa: A Esfera dos Livros, 2015, p.31.
**Cf. A feliz expressão utilizada por Mircea Eliade na sua obra La Pensée Sauvage(Paris: Plon, 1962)
*** Lisa B. O’Shea – New Health Digest, June 2004; disponível em:

domingo, 27 de novembro de 2016

Faz hoje

Faz hoje um ano no "Facebocas"!...


PASSEAR
Há quem leve o cão a passear mas, no meu caso, fui eu que me levei hoje a passear pela multifacetada e cosmopolita Lisboa. Deve ter sido porque me estava a sentir algo engaiolado, como um animal doméstico (mais precisamente aquilo a que os anglo-saxónicos chamam "pet")! Agora, depois de uns bons quilómetros de caminhada, estou pleno de mundo e de fantástica luz invernal... apesar do jardim que me surpreendeu em Al-fama se encontrar à sombra.

PC
(Lisboa, 27 de Novembro de 2015)

Pedro Cuiça © Alfama (Lisboa, 27/ Nov. 2015)


MENIR

Salve, falo sagrado,
Erecto na planura
Ajoelhada!
Quente e alada
Tesura
De granito,
Que, da terra emprenhada,
Emprenhas o infinito!

Miguel Torga
(Outeiro, Monsaraz, 31 de Maio de 1986
in "Diário XIV", Coimbra, 1995, p. 1461)

OBOD © Menir do Outeiro (Monsaraz - Alentejo)

The Camp...

The Glacier Camp

Pedro Cuiça © Messner Mountain Museum Firmian (Tirol do Sul, 14/ Out. 2016)

Midnight on the Chogo Lungma La. Moonlight. The steady sweep of the icy blizzards of the north cuts through canvas and eiderdown and fur. Roland Rex, peering out for a moment from his tiny tent upon the stupendous beauty of the snows, almost wonders that the stars can stand before the blast. Yet, dimly and afar, a speck of life stirs on those illimitable wastes. How minute is a man in such solitudes! Yet how much man means to man! No avalanche, not the very upheaval of the deep-rooted mountains, could have held his attention so close as did that dot upon the wilderness of snow.
So far it was, so heavy the weight of the wind, so steep and slippery the slopes, that dawn had broken ere the speck resolved itself into a man. Tall and rugged, his black hair woven into a web over his eyes to protect them from the Pain of the Snows, as the natives call the fearful fulminating snow blindness of the giant peaks, his feet wrapped round and round with strips of leather and cloth, he approached the little camp.

Patient and imperturbable are these men who face the majesty of the great mountains: experience has taught them it is useless to be angry with the snowstorm. A blizzard may persist for a week; to conquer it one must be ready to persist for many weeks. 
[CROWLEY, 2015: 285]



Bibliographic reference
CROWLEY, Aleister. Ercildoune in The Drug & Other Stories. London: Wordsworth Editions Limited, 2015, pp. 652. ISBN 978-1-84022-734-5